quinta-feira, 7 de outubro de 2010

UNO

Pra que tanta ladainha, tantas religiões, tantas regras e leis pra levar a algo tao simples? Todos os aprendizados, todas as análises de conflitos, todos os insights levam apenas a uma conclusão: somos uma coisa só. Estamos todos ligados. Somos a unidade no conjunto. Pra escolher uma palavra pequena e simpática, somos o UNO. E quanto mais nos afastamos disso, mais causamos o mal, o conflito, o desequilíbrio.

Seria bem mais fácil entender o uno se não tivéssemos consciência individual e soubéssemos que somos únicos e mortais (de um ponto de vista individual). E aí se forma o paradoxo: É dificil pro nosso cérebro entender que somos peças mínimas, porém significantes, de um mecanismo muito maior: a vida. Não individualmente, claro, mas num sentido amplo. Sentido do uno. As vezes até penso que esse paradoxo é o que dá "dinâmica" prioritária às coisas, que o universo está sempre nos testando, pra ver até que ponto podemos equilibrar as coisas.

A natureza é destituída de 'bondade' ou 'maldade'; ela segue apenas (misteriosas e maravilhosas) leis imutáveis quando dá a vida ou a morte (para renovar o que havia criado). Tudo nela se equilibra, há uma reação a cada ação, há o retorno a tudo que cada ser dá a ela, há um antídoto para cada veneno, uma recompensa para cada sofrimento. Não há "crueldade" em sua sabedoria. A borboleta devorada pelo pássaro se torna aquele pássaro, e o pequeno pássaro morto por um animal está apenas cumprindo seu papel. Isso não pode ser considerado um "mal" na Natureza, nela não há esse conceito. O homem já começa errado temendo a morte, o seu maior fantasma, que não é um mal, só se vista de forma individual. O mal surge a partir do ego, da (in)consciência humana e sua origem está inteiramente no homem, que apesar de raciocinar, e apesar de ter toda a natureza para observar e pela qual ser grato, se dissocia dela. Ou seja, a natureza é perfeita, é como tem que ser. A partir dessa compreensão, devemos confiar nela, e observar mais atentamente, vendo que tudo nos mostra que a vida é o uno. Se agimos na direção oposta desse uno, com egoísmo e ganância a ponto de prejudicar alguém, estamos contra a natureza, e criando o desequilíbrio. Estamos aqui pra trabalhar pela natureza, pelo uno.

Por exemplo: Reparem como a vida nos disponibiliza prazeres diversos, mas mostra que a partir do momento que só pensamos no nosso prazer individual e/ou imediatista, não entendemos o caminho do uno (começando com as consequências no nosso corpo, depois na nossa relação com as pessoas, com o mundo e assim por diante) e facilmente nos excedemos. Este excesso traz doenças, miséria, sofrimento físico e mental, e isso acaba sendo transmitido pra quem nos rodeia e pra gerações futuras. Outro exemplo: A ambição e o desejo de assegurar felicidade e conforto para aqueles que amamos através da obtenção de reputações e riquezas são sentimentos naturais e dignos, mas quando eles excluem o bem de outros, transformam o homem em um tirano cruel e ambicioso, um egocentrista, um egoísta, e trazem miséria para os que estão ao seu redor. porque vai de encontro ao UNO.

Querer ganhar sem ver o lado de todos os outros causa desequilíbrio, quem discrimina ou é separacionista gera desequilíbrio, quem se acha melhor, quem projeta vontades/expectativas nos outros ou quem é intolerante gera desequilíbrio. Quem se acomoda no seu conforto, quem não é atencioso com outros ou faz jogos em nome do interesse individual (ou de um grupo isolado) tambem. Quem não entende a necessidade dos outros, e não compreende suas limitações, está tambem isolacionista, portanto contra o uno, e gera desequilíbrio. É simples! O uno é o DEUS, chamem ele do que quiserem chamar. Sempre penso que as religiões existem porque é mais fácil seguir regrinhas, pré-moldados, sem pensar muito (inclusive utilíssimo pra adormecer nossos medos e incompreensões), e é custoso alcançar essa compreensão pela (1)educação, (2)consciência e (3)exercício.. As vezes pode levar toda uma vida.

Claro que amar a si mesmo faz parte desse uno; confiar em si mesmo tambem. SABER que somos uma importante peça desse uno é essencial, e isso não implica em ser vaidoso, orgulhoso ou precisar de aprovação dos outros. Devemos fazer nossa parte com prazer e alegria, sem apontar/acusar/recriminar os outros ou cobrar isso deles. Lembre que qualquer repressão ou tentativa de controlar outros também nos afasta do uno, obviamente. Cada um é responsável por si mesmo e atinge sua consciência no seu ritmo.

Aí alguem pode me dizer "mas se seguirmos esse conceito à risca, pagaremos sempre pelos que não fazem a sua parte". Não acho. Se todo mundo fizesse a sua parte, já estaria bom demais. Acho que não existe mais consciência no mundo porque as pessoas se acomodam e fogem de suas responsabilidades, e isso não é uma critica, deve ser compreendido também como parte natural da vida. Ela sabe o que faz. (Já lutei muito contra o mundo por causa disso, e essa "militância em nome de ideais" era puro desperdício de energia. Hoje acho que o único ideal é em direção ao uno.)

A natureza, repito, é perfeita. Então quem diz que o mundo é cruel, que a vida é ruim, que as pessoas sao estúpidas etc. ou que fica preso em seus problemas (que nada mais são que desafios), alimentando-os, está tambem sendo individualista. O mínimo que podemos fazer, estando como passageiros nessa inacreditável vida e nos compreendendo como "células" desse maravilhoso organismo chamado VIDA, é sempre exercitar a contemplação e a gratidão. Isso trará coisas maiores, e não mesquinharias ou sentimentos individualistas como competição, raiva, vaidade, ciúme, inveja, vingança, remorso, rancor, auto-vitimização e até culpa e medo, esses dois últimos provavelmente os maiores inimigos de uma vida saudável.

E os valores mais cobiçados pela maioria, como poder, imagem, fama e dinheiro? Reflita você mesmo(a) de que forma isso nos afasta do uno. E muito.

As religiões quando falam "amai-vos uns aos outros", "faça ao outro o que gostaria que fizessem a ti" ou "ame todas as criaturas vivas incondicionalmente" apenas querem dar a compreensão do uno. A "evolução" é nada mais do que buscarmos a forma mais pura e verdadeira de nós mesmos, e isso é proporcional a se aproximar da consciência do uno. Mas a compreensão disso tudo está muito além de fórmulas, ou de ler esse texto fazendo movimento positivo com a cabeça.. Está em uma conscientização gradativa que depende de nós, que, uma vez sabendo da existencia desse conflito e da dificuldade dele, partimos para o exercício diário e interminável de sermos humanos cada vez mais "conscientes do uno", pouco a pouco, a cada dia da nossa vida.


texto dedicado a todos aqueles que amo, amei e ainda quero amar.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

As camadas da Cebola


A realidade é uma cebola posta em nossa frente: De uma forma ou de outra, sempre precisamos compreendê-la e lidar com ela, ou seja: prepará-la, porque geralmente precisamos de algum metodo pra descascá-la se não quisermos chorar a toa.. Por isso a maioria das pessoas nem se atreve a descascar uma cebola. Indigesta e ardida, se crua, geralmente fica mais agradavel degustá-la depois de algum preparo. É necessário certa experiência e talento. "Preparo" não no sentido de mascarar a real e crua cebola, mas sim de, uma vez tendo noção de como ela é, podermos usa-la como melhor nos convier.

A questão é lembrar que essa cebola tem várias camadas. Ver só pela superficie é muito pouco, incompleto. A verdade tampouco está nas camadas de dentro, mas é diretamente proporcional à consciência de todas as camadas, do conjunto. Como é dificil "ver" as camadas, devemos sempre partir do princípio que nunca enxergamos todas elas: sempre podemos enxergar, aprender mais, por isso é importante observar como outras pessoas vêem as coisas: muitas vezes podemos aprender a ver uma nova camada a partir disso. Um mesmo fato, um mesmo filme, uma mesma história pode ter varias camadas de interpretação, por exemplo. Cada pessoa percebe a realidade e suas camadas de uma forma, e considerando em primeiro lugar essa grande relatividade, nunca saberemos exatamente o que é a "verdade" absoluta, na verdade. ;)

Quem decide, conscientemente (essa decisão geralmente é consciente) realmente observar, analisar as diferentes camadas da cebola acaba desenvolvendo um poder de visão, um poder que ajuda muito na compreensão e tolerância do mundo. É o oposto dos que dizem que ignorância, em alguma instância, pode ser uma benção. Essa ignorância é apenas um paliativo: pode trazer alguma paz e tolerância, mas de um tipo superficial, frágil, que vai necessitar de outras muletas como dogmas, ilusões ou mais ignorância.

O interessante ao observar o poder de visão das camadas é que as vezes podemos nos perder em camadas mais profundas e deixamos de nos conectar e entender a maioria das pessoas, que só são capazes de ver a camada superficial, e isso é tido, pelo senso comum destes, como "loucura". O "louco" pode se fixar (e se perder) em apenas uma camada. Ele não está certo ou errado, já que não existem tais coisas, mas sim fora de sintonia com a maioria, ou sem a capacidade de sintonizar com uma pessoa que pensa diferente, sem capacidade de se adaptar com o mundo que funciona a partir da visão superficial da cebola. O poder da "visão" consiste em considerar todas as camadas, mais as relações do mundo com as camadas que cada um é capaz de enxergar. É ver como um todo. Esse é o caminho de compreender cada vez mais as coisas e ajudar os outros a compreenderem tambem.

Compreender o mundo é um aprendizado eterno, e provavelmente um objetivo inalcançável, por toda essa relatividade. Mas acredito que só assumindo essa limitação, e sempre no caminho da compreensão da vida, da realidade a fundo e também da relatividade disso tudo que podemos ficar verdadeiramente em paz, relaxar e desfrutar o maximo da nossa vidinha nesse planeta. Falando nisso, alguém tem uma boa receita com cebola, por acaso?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Entrevista com Ed Motta 2007



Sim, eu tambem estrevistei Ed Motta. Há quase 13 anos (1997), a entrevista foi publicada na época no site Mood e no meu blogue. Vai aqui na íntegra, sem mudar uma vírgula, pela curiosidade. Gosto muito do estilo do Ed de falar suas opiniões, sem máscaras, demagogias e hipocrisias. Acho que as pessoas deveriam entender e respeitar mais a verdade de cada um, sem se ofenderem facilmente e sem ficar essa fiscalização do correto, como as criticas que ele recebeu essa semana pela entrevista dada para a Contigo.

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O POLÊMICO SOUL MAN

Por Lucio K - 24/10/97



Esbanjando simpatia - É assim que Ed Motta, 26, enfrenta a maratona de entrevistas de lançamento do seu novo álbum, Manual prático para festas, bailes e afins Vol 1. "Eu não acredito em psicólogos, vocês repórteres e entrevistadores são os meus terapeutas, me solto como se estivesse em um divã, falo mesmo. Esse negócio de entrevista comportadinha, 'Oí, como é que tá?' e o outro 'Tudo bem, tudo maravilhoso' não é pra mim...", confidencia Ed, numa prévia do que promete a entrevista. Uma exigência da gravadora foi que as entrevistas fossem na sala de entrevistas oficial, com a presença de duas mulheres que ficavam observando imóveis e caladas como estátuas. Eram as "Fiscais de entrevista".

Sem lançar um trabalho solo desde o introspectivo "Entre e ouça" (1992) , Ed volta reformulado e muito bem assessorado. Foram convocados desde Liminha, o "Midas" da produção pop , a letristas como Ronaldo Bastos, Chico Amaral, Zélia Duncan e Rita Lee Para participar do album.

Lucio K - Como é que você, um Soul Man, que respira música, ficou cinco anos nesse "jejum fonográfico", sem lançar um trabalho solo?

ED MOTTA - Esse tempo me foi meio que imposto. No "Entre e ouça" eu estava me voltando mais para o lado jazzistico, erudito da música, e me acabei me afastando da proposta inicial da minha música, o Soul , o Funk. Eu estava muito mais para "Leonard Bernstein" do que pra "Stevie Wonder"... e fui radical, reneguei todo meu trabalho anterior...

Lucio K - E por que aconteceu isso?

ED MOTTA - É o seguinte : Você vai andando, pesquisando música cada vez mais, descobrindo coisas mais complexas musicalmente, e aí coisas que eu gostava antes foram se tornando ultrapassadas. Sou muito ligado à melodia, harmonia, complexidade e qualidade musical. É aquele negócio : tem gente que tem medo de nadar na parte funda da piscina, mas eu sempre fui curioso, nunca tive medo de me afogar não, então eu sempre quis conhecer o lado mais profundo da música, o lado mais erudito... Mas ao mesmo tempo, o funk continuava presente dentro de mim, como uma paixão escondida, e eu só queria fazer música pra um público mais seleto. Aí comecei a ver o lado missionário do artista, de trazer uma coisa de qualidade pra um público maior, um disco pop, dançante com coisas tipo (pega o violão e cantarola um trecho de "Fora da lei") então eu quis fazer foi essa coisa baseada em bossa nova, jazz, mpb, música erudita de uma forma suave, mais abrangente e mais dançante. O Liminha trouxe uma visão de mercado pro trabalho; essas músicas tinham muito mais elementos, acordes pra caramba, que foram enxugados pra um resultado mais pop...

Lucio K - Mais digerível e sem comprometer a qualidade, diga-se de passagem...

ED MOTTA - Exato. E eu antes não estava aberto pra isso . Quando gravei o "Entre e ouça", não tava nem aí, era aquela coisa : gostou ? Te amo. Não gostou ? Imbecil (risos). E eu sofri isso no palco, porque o público estranhou aquele troço. Eu comecei a ter uma relação de raiva com as pessoas, já estava explodindo... Foi aí que eu fui pros Estados Unidos (1994), ficava aquela coisa de "Ed, toca Manuel " e eu não tava mais nessa, e chegou a um ponto que eu fazia coisas pra irritar, dizia "Ah é ? Vocês não tão aplaudindo ? Então toma !" e sentava no piano e tocava uma coisa mais complexa, e aí que era pior ainda... (risos) Então esse negócio foi até válido, essa fase, porque assim...(fica mais sério) foi na verdade uma coisa ingênua da minha parte, porque nem sempre o que a gente tem de mais trabalhado vai estar aparecendo . As vezes aparece um pouquinho, e a gente tem que estar feliz com isso. Então eu quis um disco pop, mas com dignidade.

Lucio K - Como é que funcionaram as influências externas nesse processo, e a idéia de chamar letristas diversos, o Liminha...

ED MOTTA - Você escuta de tudo das pessoas que estão em volta de você, que tem que ser mais pop, tem que estourar, e tal , e foi uma ajuda também, porque eu estava relutando muito em fazer um disco pop. Então você fica... Bom, vamos fazer uma coisa que tenha o máximo de qualidade e o máximo de pop também. Então quando eu cheguei no Brasil (1995) eu comecei a fazer contato com essas pessoas, queria letras boas na minha música, fui muito influenciado pelo trabalho do Aldir Blanc. Quando eu ouvi o trabalho do Aldir com o Guinga, eu falei "peraí, cara... Você não curte letra de música? A letra desse cara é de fazer chorar, e a música desse cara é um absurdo, pra mim é o melhor compositor do mundo!". Então porque não juntar, aquela coisa de fotografia bonita com um bom roteiro?... Mas futuramente tenho vontade de gravar um disco só com... (cantarola improvisos), sem letra, porque a minha viagem da música sempre foi essa, musical, e inclusive pra provar que uma pessoa com cultura, articulada pode não fazer letra e não estar ligado na poesia, e tal. Existe uma síndrome no Brasil de valorizar muito a letra, a poesia na música, mas o meu negócio mesmo é exclusivamente a música.

Lucio K - Como rolou a proposta de incorporar novas tecnologias no novo album, como samplers, e uma roupagem mais dançante?

ED MOTTA - Eu busquei isso, com pessoas me ajudando, porque se for me deixar sozinho, a tendência é radicalismo puro...(risos) Então eu achei importante essa ajuda, gostei de trabalhar pela primeira vez mais em conjunto.

Lucio K - E o que você achou desse concurso que a Universal (gravadora de Ed) promoveu, cedendo a voz da canção "Fora da lei" para quase 100 DJs e produtores fazerem suas próprias versões?

ED MOTTA - Achei legal ...(sem muita veemência) Nos meus primeiros discos eu tinha ciúme, mas hoje em dia vejo de uma maneira legal, é como você ver uma pessoa numa festa tocando uma música sua no violão, como uma interpretação, é interessante... é como um exercício de democracia pra mim (risos tímidos). Algo difícil, que eu fui conquistando aos poucos, mas acabei curtindo.

Lucio K - Você tem andado "atacando" de DJ em algumas festas na cidade...

ED MOTTA - Na verdade eu era DJ, antes de cantar. Fui DJ do Mariuzinn (lendária casa noturna de Copacabana) , no antigo Metrópolis. Sempre discotequei Black Music, com algumas coisas diferentes. Eu sabia que queria cantar, mas achava fascinante a coisa de mostrar coisas novas. Lembro que tocava as vertentes mais radicais do Funk na época, como B.T. Express, Brass Construction, Norman Connors ... (...) Eu tenho mais de cinco mil discos, sempre fui um colecionador, e me orgulho disso. Aqui no Rio, de colecionador mesmo só posso citar o Frejat (Barão Vermelho).

Lucio K - Outro hobbie seu é a coleção de quadrinhos antigos...

ED MOTTA - Eu estou o tempo inteiro ligado às coisas que eu gosto, a música, o vinho, a comida, o cinema, os quadrinhos. O estilo que eu gosto de quadrinhos é o estilo do pessoal que está com 40, o pessoal que pegou a revista Grilo e essas coisas todas.

Lucio K - E hoje em dia, que bandas, não eruditas, você curte ou lhe influenciam?

ED MOTTA - O pop no Brasil não me atrai muito, curto poucas coisas, em geral as produções são grosseiras...Estou falando do pop, porque pra música brasileira mesmo, eu boto o tapete vermelho, é o país de Tom Jobim, é uma das músicas mais sofisticadas do mundo. Tem uma safra de músicos herdeiros do Tom, do Villa Lobos, muito boa. Um compositor brasileiro da nova geração que representa bem isso é o Flávio Henrique, de B.H. . No pop, gosto do J. Quest (também de B.H.), Mestre Ambrósio, trabalhos assim calcados na musicalidade. Já no pop internacional, gosto muito do Incognito. São exímios músicos, uma boa cantora... Fora eles, hoje em dia... Tá difícil, viu ? Gosto de escutar quem tem uma técnica que me interessa. Escuto até Kenny G, que é um saco mas tecnicamente é ótimo (risos). Se você me perguntar quais as cinco melhores coisas que eu já ouvi de rhythm & blues e soul, diria Earth Wind & Fire, Donny Hathaway , Marvin Gaye, Stevie Wonder e Incognito. Os americanos em geral têm mais intimidade, técnica e estudo com a música. São mais competitivos, e isso é bom. O inglês é aquela coisa do Brand New Heavies lança um disco e vai lá na casa do Jamiroquai, "e aí, beleza, maneiro, vamos tomar uma cervejinha, fazer uma Jam", e aquele clima de igualdade acaba acomodando os caras. É como aqui no Rio, a competitividade é grande, e sadia , quando não vira inveja, é claro.

domingo, 31 de janeiro de 2010

MASHUPS pelos maiores MEXAPEIROS do Brasil


O tipo de montagem conhecido como “mashup” chegou pra ficar, é o que mostra a evolução do estilo no mundo inteiro e o sucesso entre o público, que anseia por novidades e ao mesmo tempo adora referências do universo pop. Mais um sinal disto é a maior festa dedicada ao gênero, a norte-americana Bootie, chegando periodicamente ao Rio de Janeiro a partir de maio de 2010, depois de uma edição “beta” muito bem sucedida em Brasilia, em 2009.

Aqui vão 5 perguntas para os principais expoentes do mashup no Brasill: Faroff (27), João Brasil (31), Brutal Redneck (33) e André Paste (18)


1 - Como voce começou a se interessar pelo mashup e o que te inspirou a começar a faze-los?


FAROFF: Quando me mudei para os EUA tive contato, em 2006, com o álbum The Beastles (Beastie Boys vs Beatles) do dj BC, de Boston. Achei demais e decidi que tinha que me envolver com mashups. Eu estava querendo compor e produzir, e como estava distante do Móveis (Coloniais de Acaju, minha banda na época), senti que os mashups eram a forma ideal de fazê-lo. Compor com as músicas dos outros. Foi amor ao primeiro corta-e-cola. E quando começa, não dá pra parar. Daí vieram os primeiros convites no Brasil, nos EUA, os vídeos...

JOÃO BRASIL: Eu começei a fazer colagens sonoras na faculdade de música, na Berklee. Lá fazia colagens clássicas e experimentais, colagens com vozes, misturava Villa-Lobos com Varese... Quem me inspirou a fazer colagens sonoras usando música pop foram os jornalistas Bruno Natal e o Alexandre Matias. O disco Feed the animals do Girl Talk foi o que me fez fazer o disco Big Forbidden Dance.

BRUTAL REDNECK: Faço parte de uma banda de rock eletrônico chamada Trilöbit. A banda tem 5 anos. No processo de criação das nossas músicas sempre rola uma colagem de um trecho de música ou acapella, pra tirar um sarro. Nesse tempo fiz alguns testes de mashups. Ano passado tivemos o prazer de discotecar na boate paulista "A loca" e por sorte tocamos antes da dupla californiana "A plus D". Trocamos CDs e fiquei vidrado nos mashups deles e comecei a estudar e treinar os mashups até se tornar um vício!

ANDRÉ PASTE: Há uns 3 anos atrás resolvi fazer um curso de produção de musica eletrônica, sem muita pretensão de realmente começar a produzir, até que eu ouvi o Big Forbidden Dance do João Brasil e vi que era isso que eu queria fazer e comecei a fazer meus mashups de brincadeira.



2 - Pra você, quais os maiores nomes do mashup fora do Brasil?

FAROFF: Temos aí grandes nomes como o Party Ben e da nova geração, o Mad Mix Mustang (o cara é bom!). Obviamente, o A+D é a dupla que mantém a cena ativa mundo afora, não só produzindo faixas mas também organizando as festas Bootie pelo mundo. Eles são os maiores divulgadores da cultura mashup. O Girl Talk é também um nome muito conhecido, mas ele não é inserido na cultura mashup, traçando sua própria história separadamente.

JOÃO BRASIL: Girl Talk, John Oswald e 2 many Dj's

BRUTAL REDNECK: Com certeza o "Danger mouse" é um ícone do estilo.
A dupla "A plus D" é uma das minhas favoritas.
E adorei o último trabalho do "DJ Lobsterdust".

ANDRÉ PASTE: O maior nome pra mim é o GirlTalk, mas também gosto muito de 2ManyDjs, A+D, Loo & Placido etc.



3 - O conceito mashup vai se esgotar como um modismo qualquer ou as possibilidades são infinitas e é uma cena que está apenas começando?

FAROFF: Eu sinceramente acho que a indústria fonográfica está em um processo sem volta de transformação radical. Os padrões antigos não vão valer mais muito em breve. Não tem como você manter as mesmas lógicas do passado com a internet e as novas tecnologias pipocando a cada dia. Os artistas que perceberem isso logo vão sair ganhando. Veja o caso do Radiohead. As pessoas vão baixar, ripar, estripar e remixar suas músicas de qualquer jeito, então a melhor forma é entender isso e jogar de acordo. Já tem um monte de artistas soltando as faixas (baixo, bateria, guitarra) de suas músicas na internet para as pessoas reciclarem, criarem etc. O jogo mudou, não é mais uma gravadora, a TV e a rádio te impondo o que ouvir. Cada um vai atrás do que quer. Vejo tudo isso como um processo maior de relação direta entre o artista e o público onde os dois lados contribuem. De certa forma, o artista de mashup é um pedaço do público respondendo aos artistas originais das faixas com suas criações em cima das criações já existentes. Acho que o mashup é a cara da nossa época, em se recicla tudo, reinventa, refaz, copia-corta-cola, revisita, mistura mídias e gêneros. A gente vê isso na moda, no cinema. E na música também. Acho que o mashup tem um bom futuro pela frente. Inclusive partindo para novas fronteiras, como a mistura de vídeo também.

JOÃO BRASIL: Para mim são infinitas, sempre vai ser possível reciclar o que existe. É uma cena eterna.

BRUTAL REDNECK: Creio que veio pra ficar, pois além de música o mashup é uma forma de arte e expressão que tem como base e matéria prima todo o universo musical, portanto infinita e sempre crescente e que ainda conta com a soma de outras expressões como o vídeo, o desenho, a performance ao vivo, figurino, etc..

ANDRÉ PASTE: Acho que o mashup é inesgotável! Sempre vão aparecer novos mashups. A cena esta retornando agora, pelo que eu sei o ápice do mashup foi em 2005, mas 2010 é o ano do mashup no Brasil! hahaha



4 - O que voce recomenda pra quem quer começar a se aventurar a fazer mashups?


FAROFF: Cabeça aberta, não ter preconceitos em misturar estilos, épocas, regiões. A beleza do mashup é isso!

JOÃO BRASIL: Aprendam a usar um software que edite áudio (Eu uso o Ableton Live), cabeça aberta e experimente sem medo de errar.

BRUTAL REDNECK: Estudar teoria musical é uma boa. Não precisa ser um expert (eu não sou), mas é bom entender o básico de música.
Estudar softwares de áudio é algo prioritário. Programas de edição, sequenciadores, midi, plugins, multi pistas.
Creio que a pesquisa incansável é a chave para a produção de mashups. Ficar ligado nas novidades, pesquisar músicas do passado, músicas estrangeiras, construir uma boa discoteca e principalmente brincar com a música. Escutar um som e imaginar outro que caiba ali. Explorar os dois lados de um som estéreo em busca de vocais ou instrumental limpos.Explorar a frequência.

ANDRÉ PASTE: Ouvir e conhecer o máximo de musica possível, e aprender algum programa de edição de audio (como o ableton live)



5 - Eu sinto que o público confunde o conceito "montagem" com o conceito "mashup", afinal, qual a diferença entre os dois, no seu ponto de vista?

FAROFF: O mashup é o resultado de combinar duas (ou mais) composicoes para criar uma composicao nova. É a ideia do A+B de que o pessoal tanto fala. Muitas vezes, é legal que o público perceba que se está misturando diversas músicas, para poder diferenciar o mashup de um remix. Outras vezes, surpreender o público com uma mistura completamente inusitada também é bacana.
Difícil separar os dois conceitos. Acho que o mashup é um tipo de montagem. Montagem é um conceito mais amplo. Por exemplo, produzir batidas para uma faixa pode ser montagem, mas não seria um mashup, no conceito estrito.

JOÃO BRASIL: Para mim não tem diferença. Os dois são colagens sonoras. Para mim colagem é o maior termo. Mashup A+B, montagem, microsampling, music medley, ... são apenas diferentes estilos de uma mesma linguagem.

BRUTAL REDNECK: Eu não sei o conceito exato de montagem, mas o mashup pra mim tem esse sentido de não ser só uma colagem ou montagem sonora.Tem que ter arte e expressão seja no nome da música, no contraste radical ou absoluta harmonia de estilos, na ironia conseguida misturando frases, no desenho feito para a capa de um disco virtual, no video caseiro, na performance, na marca pessoal.
Saca aquele lance de dar o play simultâneo do disco "The dark side of the moon" do Pink Floyd e no filme "O mágico de OZ"? isso pra mim é o conceito de mashup.

Eu fico mais preocupado com a confusão que alguns fazem de mashup com pirataria! (risos)

ANDRÉ PASTE: Eu acho que montagem é um nome abrasileirado pra mashup.


Obrigado a todos!

LINKS:
FAROFF: myspace.com/fanfaroff youtube.com/fanfaroff
JOÃO BRASIL: www.myspace.com/joaobrasil www.365mashups.wordpress.com
BRUTAL REDNECK: http://www.myspace.com/bandatrilobit http://soundcloud.com/brutalredneck
ANDRÉ PASTE: http://twitter.com/andrepaste http://www.myspace.com/andrepastee