quinta-feira, 7 de outubro de 2010

UNO

Pra que tanta ladainha, tantas religiões, tantas regras e leis pra levar a algo tao simples? Todos os aprendizados, todas as análises de conflitos, todos os insights levam apenas a uma conclusão: somos uma coisa só. Estamos todos ligados. Somos a unidade no conjunto. Pra escolher uma palavra pequena e simpática, somos o UNO. E quanto mais nos afastamos disso, mais causamos o mal, o conflito, o desequilíbrio.

Seria bem mais fácil entender o uno se não tivéssemos consciência individual e soubéssemos que somos únicos e mortais (de um ponto de vista individual). E aí se forma o paradoxo: É dificil pro nosso cérebro entender que somos peças mínimas, porém significantes, de um mecanismo muito maior: a vida. Não individualmente, claro, mas num sentido amplo. Sentido do uno. As vezes até penso que esse paradoxo é o que dá "dinâmica" prioritária às coisas, que o universo está sempre nos testando, pra ver até que ponto podemos equilibrar as coisas.

A natureza é destituída de 'bondade' ou 'maldade'; ela segue apenas (misteriosas e maravilhosas) leis imutáveis quando dá a vida ou a morte (para renovar o que havia criado). Tudo nela se equilibra, há uma reação a cada ação, há o retorno a tudo que cada ser dá a ela, há um antídoto para cada veneno, uma recompensa para cada sofrimento. Não há "crueldade" em sua sabedoria. A borboleta devorada pelo pássaro se torna aquele pássaro, e o pequeno pássaro morto por um animal está apenas cumprindo seu papel. Isso não pode ser considerado um "mal" na Natureza, nela não há esse conceito. O homem já começa errado temendo a morte, o seu maior fantasma, que não é um mal, só se vista de forma individual. O mal surge a partir do ego, da (in)consciência humana e sua origem está inteiramente no homem, que apesar de raciocinar, e apesar de ter toda a natureza para observar e pela qual ser grato, se dissocia dela. Ou seja, a natureza é perfeita, é como tem que ser. A partir dessa compreensão, devemos confiar nela, e observar mais atentamente, vendo que tudo nos mostra que a vida é o uno. Se agimos na direção oposta desse uno, com egoísmo e ganância a ponto de prejudicar alguém, estamos contra a natureza, e criando o desequilíbrio. Estamos aqui pra trabalhar pela natureza, pelo uno.

Por exemplo: Reparem como a vida nos disponibiliza prazeres diversos, mas mostra que a partir do momento que só pensamos no nosso prazer individual e/ou imediatista, não entendemos o caminho do uno (começando com as consequências no nosso corpo, depois na nossa relação com as pessoas, com o mundo e assim por diante) e facilmente nos excedemos. Este excesso traz doenças, miséria, sofrimento físico e mental, e isso acaba sendo transmitido pra quem nos rodeia e pra gerações futuras. Outro exemplo: A ambição e o desejo de assegurar felicidade e conforto para aqueles que amamos através da obtenção de reputações e riquezas são sentimentos naturais e dignos, mas quando eles excluem o bem de outros, transformam o homem em um tirano cruel e ambicioso, um egocentrista, um egoísta, e trazem miséria para os que estão ao seu redor. porque vai de encontro ao UNO.

Querer ganhar sem ver o lado de todos os outros causa desequilíbrio, quem discrimina ou é separacionista gera desequilíbrio, quem se acha melhor, quem projeta vontades/expectativas nos outros ou quem é intolerante gera desequilíbrio. Quem se acomoda no seu conforto, quem não é atencioso com outros ou faz jogos em nome do interesse individual (ou de um grupo isolado) tambem. Quem não entende a necessidade dos outros, e não compreende suas limitações, está tambem isolacionista, portanto contra o uno, e gera desequilíbrio. É simples! O uno é o DEUS, chamem ele do que quiserem chamar. Sempre penso que as religiões existem porque é mais fácil seguir regrinhas, pré-moldados, sem pensar muito (inclusive utilíssimo pra adormecer nossos medos e incompreensões), e é custoso alcançar essa compreensão pela (1)educação, (2)consciência e (3)exercício.. As vezes pode levar toda uma vida.

Claro que amar a si mesmo faz parte desse uno; confiar em si mesmo tambem. SABER que somos uma importante peça desse uno é essencial, e isso não implica em ser vaidoso, orgulhoso ou precisar de aprovação dos outros. Devemos fazer nossa parte com prazer e alegria, sem apontar/acusar/recriminar os outros ou cobrar isso deles. Lembre que qualquer repressão ou tentativa de controlar outros também nos afasta do uno, obviamente. Cada um é responsável por si mesmo e atinge sua consciência no seu ritmo.

Aí alguem pode me dizer "mas se seguirmos esse conceito à risca, pagaremos sempre pelos que não fazem a sua parte". Não acho. Se todo mundo fizesse a sua parte, já estaria bom demais. Acho que não existe mais consciência no mundo porque as pessoas se acomodam e fogem de suas responsabilidades, e isso não é uma critica, deve ser compreendido também como parte natural da vida. Ela sabe o que faz. (Já lutei muito contra o mundo por causa disso, e essa "militância em nome de ideais" era puro desperdício de energia. Hoje acho que o único ideal é em direção ao uno.)

A natureza, repito, é perfeita. Então quem diz que o mundo é cruel, que a vida é ruim, que as pessoas sao estúpidas etc. ou que fica preso em seus problemas (que nada mais são que desafios), alimentando-os, está tambem sendo individualista. O mínimo que podemos fazer, estando como passageiros nessa inacreditável vida e nos compreendendo como "células" desse maravilhoso organismo chamado VIDA, é sempre exercitar a contemplação e a gratidão. Isso trará coisas maiores, e não mesquinharias ou sentimentos individualistas como competição, raiva, vaidade, ciúme, inveja, vingança, remorso, rancor, auto-vitimização e até culpa e medo, esses dois últimos provavelmente os maiores inimigos de uma vida saudável.

E os valores mais cobiçados pela maioria, como poder, imagem, fama e dinheiro? Reflita você mesmo(a) de que forma isso nos afasta do uno. E muito.

As religiões quando falam "amai-vos uns aos outros", "faça ao outro o que gostaria que fizessem a ti" ou "ame todas as criaturas vivas incondicionalmente" apenas querem dar a compreensão do uno. A "evolução" é nada mais do que buscarmos a forma mais pura e verdadeira de nós mesmos, e isso é proporcional a se aproximar da consciência do uno. Mas a compreensão disso tudo está muito além de fórmulas, ou de ler esse texto fazendo movimento positivo com a cabeça.. Está em uma conscientização gradativa que depende de nós, que, uma vez sabendo da existencia desse conflito e da dificuldade dele, partimos para o exercício diário e interminável de sermos humanos cada vez mais "conscientes do uno", pouco a pouco, a cada dia da nossa vida.


texto dedicado a todos aqueles que amo, amei e ainda quero amar.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

As camadas da Cebola


A realidade é uma cebola posta em nossa frente: De uma forma ou de outra, sempre precisamos compreendê-la e lidar com ela, ou seja: prepará-la, porque geralmente precisamos de algum metodo pra descascá-la se não quisermos chorar a toa.. Por isso a maioria das pessoas nem se atreve a descascar uma cebola. Indigesta e ardida, se crua, geralmente fica mais agradavel degustá-la depois de algum preparo. É necessário certa experiência e talento. "Preparo" não no sentido de mascarar a real e crua cebola, mas sim de, uma vez tendo noção de como ela é, podermos usa-la como melhor nos convier.

A questão é lembrar que essa cebola tem várias camadas. Ver só pela superficie é muito pouco, incompleto. A verdade tampouco está nas camadas de dentro, mas é diretamente proporcional à consciência de todas as camadas, do conjunto. Como é dificil "ver" as camadas, devemos sempre partir do princípio que nunca enxergamos todas elas: sempre podemos enxergar, aprender mais, por isso é importante observar como outras pessoas vêem as coisas: muitas vezes podemos aprender a ver uma nova camada a partir disso. Um mesmo fato, um mesmo filme, uma mesma história pode ter varias camadas de interpretação, por exemplo. Cada pessoa percebe a realidade e suas camadas de uma forma, e considerando em primeiro lugar essa grande relatividade, nunca saberemos exatamente o que é a "verdade" absoluta, na verdade. ;)

Quem decide, conscientemente (essa decisão geralmente é consciente) realmente observar, analisar as diferentes camadas da cebola acaba desenvolvendo um poder de visão, um poder que ajuda muito na compreensão e tolerância do mundo. É o oposto dos que dizem que ignorância, em alguma instância, pode ser uma benção. Essa ignorância é apenas um paliativo: pode trazer alguma paz e tolerância, mas de um tipo superficial, frágil, que vai necessitar de outras muletas como dogmas, ilusões ou mais ignorância.

O interessante ao observar o poder de visão das camadas é que as vezes podemos nos perder em camadas mais profundas e deixamos de nos conectar e entender a maioria das pessoas, que só são capazes de ver a camada superficial, e isso é tido, pelo senso comum destes, como "loucura". O "louco" pode se fixar (e se perder) em apenas uma camada. Ele não está certo ou errado, já que não existem tais coisas, mas sim fora de sintonia com a maioria, ou sem a capacidade de sintonizar com uma pessoa que pensa diferente, sem capacidade de se adaptar com o mundo que funciona a partir da visão superficial da cebola. O poder da "visão" consiste em considerar todas as camadas, mais as relações do mundo com as camadas que cada um é capaz de enxergar. É ver como um todo. Esse é o caminho de compreender cada vez mais as coisas e ajudar os outros a compreenderem tambem.

Compreender o mundo é um aprendizado eterno, e provavelmente um objetivo inalcançável, por toda essa relatividade. Mas acredito que só assumindo essa limitação, e sempre no caminho da compreensão da vida, da realidade a fundo e também da relatividade disso tudo que podemos ficar verdadeiramente em paz, relaxar e desfrutar o maximo da nossa vidinha nesse planeta. Falando nisso, alguém tem uma boa receita com cebola, por acaso?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Entrevista com Ed Motta 2007



Sim, eu tambem estrevistei Ed Motta. Há quase 13 anos (1997), a entrevista foi publicada na época no site Mood e no meu blogue. Vai aqui na íntegra, sem mudar uma vírgula, pela curiosidade. Gosto muito do estilo do Ed de falar suas opiniões, sem máscaras, demagogias e hipocrisias. Acho que as pessoas deveriam entender e respeitar mais a verdade de cada um, sem se ofenderem facilmente e sem ficar essa fiscalização do correto, como as criticas que ele recebeu essa semana pela entrevista dada para a Contigo.

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O POLÊMICO SOUL MAN

Por Lucio K - 24/10/97



Esbanjando simpatia - É assim que Ed Motta, 26, enfrenta a maratona de entrevistas de lançamento do seu novo álbum, Manual prático para festas, bailes e afins Vol 1. "Eu não acredito em psicólogos, vocês repórteres e entrevistadores são os meus terapeutas, me solto como se estivesse em um divã, falo mesmo. Esse negócio de entrevista comportadinha, 'Oí, como é que tá?' e o outro 'Tudo bem, tudo maravilhoso' não é pra mim...", confidencia Ed, numa prévia do que promete a entrevista. Uma exigência da gravadora foi que as entrevistas fossem na sala de entrevistas oficial, com a presença de duas mulheres que ficavam observando imóveis e caladas como estátuas. Eram as "Fiscais de entrevista".

Sem lançar um trabalho solo desde o introspectivo "Entre e ouça" (1992) , Ed volta reformulado e muito bem assessorado. Foram convocados desde Liminha, o "Midas" da produção pop , a letristas como Ronaldo Bastos, Chico Amaral, Zélia Duncan e Rita Lee Para participar do album.

Lucio K - Como é que você, um Soul Man, que respira música, ficou cinco anos nesse "jejum fonográfico", sem lançar um trabalho solo?

ED MOTTA - Esse tempo me foi meio que imposto. No "Entre e ouça" eu estava me voltando mais para o lado jazzistico, erudito da música, e me acabei me afastando da proposta inicial da minha música, o Soul , o Funk. Eu estava muito mais para "Leonard Bernstein" do que pra "Stevie Wonder"... e fui radical, reneguei todo meu trabalho anterior...

Lucio K - E por que aconteceu isso?

ED MOTTA - É o seguinte : Você vai andando, pesquisando música cada vez mais, descobrindo coisas mais complexas musicalmente, e aí coisas que eu gostava antes foram se tornando ultrapassadas. Sou muito ligado à melodia, harmonia, complexidade e qualidade musical. É aquele negócio : tem gente que tem medo de nadar na parte funda da piscina, mas eu sempre fui curioso, nunca tive medo de me afogar não, então eu sempre quis conhecer o lado mais profundo da música, o lado mais erudito... Mas ao mesmo tempo, o funk continuava presente dentro de mim, como uma paixão escondida, e eu só queria fazer música pra um público mais seleto. Aí comecei a ver o lado missionário do artista, de trazer uma coisa de qualidade pra um público maior, um disco pop, dançante com coisas tipo (pega o violão e cantarola um trecho de "Fora da lei") então eu quis fazer foi essa coisa baseada em bossa nova, jazz, mpb, música erudita de uma forma suave, mais abrangente e mais dançante. O Liminha trouxe uma visão de mercado pro trabalho; essas músicas tinham muito mais elementos, acordes pra caramba, que foram enxugados pra um resultado mais pop...

Lucio K - Mais digerível e sem comprometer a qualidade, diga-se de passagem...

ED MOTTA - Exato. E eu antes não estava aberto pra isso . Quando gravei o "Entre e ouça", não tava nem aí, era aquela coisa : gostou ? Te amo. Não gostou ? Imbecil (risos). E eu sofri isso no palco, porque o público estranhou aquele troço. Eu comecei a ter uma relação de raiva com as pessoas, já estava explodindo... Foi aí que eu fui pros Estados Unidos (1994), ficava aquela coisa de "Ed, toca Manuel " e eu não tava mais nessa, e chegou a um ponto que eu fazia coisas pra irritar, dizia "Ah é ? Vocês não tão aplaudindo ? Então toma !" e sentava no piano e tocava uma coisa mais complexa, e aí que era pior ainda... (risos) Então esse negócio foi até válido, essa fase, porque assim...(fica mais sério) foi na verdade uma coisa ingênua da minha parte, porque nem sempre o que a gente tem de mais trabalhado vai estar aparecendo . As vezes aparece um pouquinho, e a gente tem que estar feliz com isso. Então eu quis um disco pop, mas com dignidade.

Lucio K - Como é que funcionaram as influências externas nesse processo, e a idéia de chamar letristas diversos, o Liminha...

ED MOTTA - Você escuta de tudo das pessoas que estão em volta de você, que tem que ser mais pop, tem que estourar, e tal , e foi uma ajuda também, porque eu estava relutando muito em fazer um disco pop. Então você fica... Bom, vamos fazer uma coisa que tenha o máximo de qualidade e o máximo de pop também. Então quando eu cheguei no Brasil (1995) eu comecei a fazer contato com essas pessoas, queria letras boas na minha música, fui muito influenciado pelo trabalho do Aldir Blanc. Quando eu ouvi o trabalho do Aldir com o Guinga, eu falei "peraí, cara... Você não curte letra de música? A letra desse cara é de fazer chorar, e a música desse cara é um absurdo, pra mim é o melhor compositor do mundo!". Então porque não juntar, aquela coisa de fotografia bonita com um bom roteiro?... Mas futuramente tenho vontade de gravar um disco só com... (cantarola improvisos), sem letra, porque a minha viagem da música sempre foi essa, musical, e inclusive pra provar que uma pessoa com cultura, articulada pode não fazer letra e não estar ligado na poesia, e tal. Existe uma síndrome no Brasil de valorizar muito a letra, a poesia na música, mas o meu negócio mesmo é exclusivamente a música.

Lucio K - Como rolou a proposta de incorporar novas tecnologias no novo album, como samplers, e uma roupagem mais dançante?

ED MOTTA - Eu busquei isso, com pessoas me ajudando, porque se for me deixar sozinho, a tendência é radicalismo puro...(risos) Então eu achei importante essa ajuda, gostei de trabalhar pela primeira vez mais em conjunto.

Lucio K - E o que você achou desse concurso que a Universal (gravadora de Ed) promoveu, cedendo a voz da canção "Fora da lei" para quase 100 DJs e produtores fazerem suas próprias versões?

ED MOTTA - Achei legal ...(sem muita veemência) Nos meus primeiros discos eu tinha ciúme, mas hoje em dia vejo de uma maneira legal, é como você ver uma pessoa numa festa tocando uma música sua no violão, como uma interpretação, é interessante... é como um exercício de democracia pra mim (risos tímidos). Algo difícil, que eu fui conquistando aos poucos, mas acabei curtindo.

Lucio K - Você tem andado "atacando" de DJ em algumas festas na cidade...

ED MOTTA - Na verdade eu era DJ, antes de cantar. Fui DJ do Mariuzinn (lendária casa noturna de Copacabana) , no antigo Metrópolis. Sempre discotequei Black Music, com algumas coisas diferentes. Eu sabia que queria cantar, mas achava fascinante a coisa de mostrar coisas novas. Lembro que tocava as vertentes mais radicais do Funk na época, como B.T. Express, Brass Construction, Norman Connors ... (...) Eu tenho mais de cinco mil discos, sempre fui um colecionador, e me orgulho disso. Aqui no Rio, de colecionador mesmo só posso citar o Frejat (Barão Vermelho).

Lucio K - Outro hobbie seu é a coleção de quadrinhos antigos...

ED MOTTA - Eu estou o tempo inteiro ligado às coisas que eu gosto, a música, o vinho, a comida, o cinema, os quadrinhos. O estilo que eu gosto de quadrinhos é o estilo do pessoal que está com 40, o pessoal que pegou a revista Grilo e essas coisas todas.

Lucio K - E hoje em dia, que bandas, não eruditas, você curte ou lhe influenciam?

ED MOTTA - O pop no Brasil não me atrai muito, curto poucas coisas, em geral as produções são grosseiras...Estou falando do pop, porque pra música brasileira mesmo, eu boto o tapete vermelho, é o país de Tom Jobim, é uma das músicas mais sofisticadas do mundo. Tem uma safra de músicos herdeiros do Tom, do Villa Lobos, muito boa. Um compositor brasileiro da nova geração que representa bem isso é o Flávio Henrique, de B.H. . No pop, gosto do J. Quest (também de B.H.), Mestre Ambrósio, trabalhos assim calcados na musicalidade. Já no pop internacional, gosto muito do Incognito. São exímios músicos, uma boa cantora... Fora eles, hoje em dia... Tá difícil, viu ? Gosto de escutar quem tem uma técnica que me interessa. Escuto até Kenny G, que é um saco mas tecnicamente é ótimo (risos). Se você me perguntar quais as cinco melhores coisas que eu já ouvi de rhythm & blues e soul, diria Earth Wind & Fire, Donny Hathaway , Marvin Gaye, Stevie Wonder e Incognito. Os americanos em geral têm mais intimidade, técnica e estudo com a música. São mais competitivos, e isso é bom. O inglês é aquela coisa do Brand New Heavies lança um disco e vai lá na casa do Jamiroquai, "e aí, beleza, maneiro, vamos tomar uma cervejinha, fazer uma Jam", e aquele clima de igualdade acaba acomodando os caras. É como aqui no Rio, a competitividade é grande, e sadia , quando não vira inveja, é claro.

domingo, 31 de janeiro de 2010

MASHUPS pelos maiores MEXAPEIROS do Brasil


O tipo de montagem conhecido como “mashup” chegou pra ficar, é o que mostra a evolução do estilo no mundo inteiro e o sucesso entre o público, que anseia por novidades e ao mesmo tempo adora referências do universo pop. Mais um sinal disto é a maior festa dedicada ao gênero, a norte-americana Bootie, chegando periodicamente ao Rio de Janeiro a partir de maio de 2010, depois de uma edição “beta” muito bem sucedida em Brasilia, em 2009.

Aqui vão 5 perguntas para os principais expoentes do mashup no Brasill: Faroff (27), João Brasil (31), Brutal Redneck (33) e André Paste (18)


1 - Como voce começou a se interessar pelo mashup e o que te inspirou a começar a faze-los?


FAROFF: Quando me mudei para os EUA tive contato, em 2006, com o álbum The Beastles (Beastie Boys vs Beatles) do dj BC, de Boston. Achei demais e decidi que tinha que me envolver com mashups. Eu estava querendo compor e produzir, e como estava distante do Móveis (Coloniais de Acaju, minha banda na época), senti que os mashups eram a forma ideal de fazê-lo. Compor com as músicas dos outros. Foi amor ao primeiro corta-e-cola. E quando começa, não dá pra parar. Daí vieram os primeiros convites no Brasil, nos EUA, os vídeos...

JOÃO BRASIL: Eu começei a fazer colagens sonoras na faculdade de música, na Berklee. Lá fazia colagens clássicas e experimentais, colagens com vozes, misturava Villa-Lobos com Varese... Quem me inspirou a fazer colagens sonoras usando música pop foram os jornalistas Bruno Natal e o Alexandre Matias. O disco Feed the animals do Girl Talk foi o que me fez fazer o disco Big Forbidden Dance.

BRUTAL REDNECK: Faço parte de uma banda de rock eletrônico chamada Trilöbit. A banda tem 5 anos. No processo de criação das nossas músicas sempre rola uma colagem de um trecho de música ou acapella, pra tirar um sarro. Nesse tempo fiz alguns testes de mashups. Ano passado tivemos o prazer de discotecar na boate paulista "A loca" e por sorte tocamos antes da dupla californiana "A plus D". Trocamos CDs e fiquei vidrado nos mashups deles e comecei a estudar e treinar os mashups até se tornar um vício!

ANDRÉ PASTE: Há uns 3 anos atrás resolvi fazer um curso de produção de musica eletrônica, sem muita pretensão de realmente começar a produzir, até que eu ouvi o Big Forbidden Dance do João Brasil e vi que era isso que eu queria fazer e comecei a fazer meus mashups de brincadeira.



2 - Pra você, quais os maiores nomes do mashup fora do Brasil?

FAROFF: Temos aí grandes nomes como o Party Ben e da nova geração, o Mad Mix Mustang (o cara é bom!). Obviamente, o A+D é a dupla que mantém a cena ativa mundo afora, não só produzindo faixas mas também organizando as festas Bootie pelo mundo. Eles são os maiores divulgadores da cultura mashup. O Girl Talk é também um nome muito conhecido, mas ele não é inserido na cultura mashup, traçando sua própria história separadamente.

JOÃO BRASIL: Girl Talk, John Oswald e 2 many Dj's

BRUTAL REDNECK: Com certeza o "Danger mouse" é um ícone do estilo.
A dupla "A plus D" é uma das minhas favoritas.
E adorei o último trabalho do "DJ Lobsterdust".

ANDRÉ PASTE: O maior nome pra mim é o GirlTalk, mas também gosto muito de 2ManyDjs, A+D, Loo & Placido etc.



3 - O conceito mashup vai se esgotar como um modismo qualquer ou as possibilidades são infinitas e é uma cena que está apenas começando?

FAROFF: Eu sinceramente acho que a indústria fonográfica está em um processo sem volta de transformação radical. Os padrões antigos não vão valer mais muito em breve. Não tem como você manter as mesmas lógicas do passado com a internet e as novas tecnologias pipocando a cada dia. Os artistas que perceberem isso logo vão sair ganhando. Veja o caso do Radiohead. As pessoas vão baixar, ripar, estripar e remixar suas músicas de qualquer jeito, então a melhor forma é entender isso e jogar de acordo. Já tem um monte de artistas soltando as faixas (baixo, bateria, guitarra) de suas músicas na internet para as pessoas reciclarem, criarem etc. O jogo mudou, não é mais uma gravadora, a TV e a rádio te impondo o que ouvir. Cada um vai atrás do que quer. Vejo tudo isso como um processo maior de relação direta entre o artista e o público onde os dois lados contribuem. De certa forma, o artista de mashup é um pedaço do público respondendo aos artistas originais das faixas com suas criações em cima das criações já existentes. Acho que o mashup é a cara da nossa época, em se recicla tudo, reinventa, refaz, copia-corta-cola, revisita, mistura mídias e gêneros. A gente vê isso na moda, no cinema. E na música também. Acho que o mashup tem um bom futuro pela frente. Inclusive partindo para novas fronteiras, como a mistura de vídeo também.

JOÃO BRASIL: Para mim são infinitas, sempre vai ser possível reciclar o que existe. É uma cena eterna.

BRUTAL REDNECK: Creio que veio pra ficar, pois além de música o mashup é uma forma de arte e expressão que tem como base e matéria prima todo o universo musical, portanto infinita e sempre crescente e que ainda conta com a soma de outras expressões como o vídeo, o desenho, a performance ao vivo, figurino, etc..

ANDRÉ PASTE: Acho que o mashup é inesgotável! Sempre vão aparecer novos mashups. A cena esta retornando agora, pelo que eu sei o ápice do mashup foi em 2005, mas 2010 é o ano do mashup no Brasil! hahaha



4 - O que voce recomenda pra quem quer começar a se aventurar a fazer mashups?


FAROFF: Cabeça aberta, não ter preconceitos em misturar estilos, épocas, regiões. A beleza do mashup é isso!

JOÃO BRASIL: Aprendam a usar um software que edite áudio (Eu uso o Ableton Live), cabeça aberta e experimente sem medo de errar.

BRUTAL REDNECK: Estudar teoria musical é uma boa. Não precisa ser um expert (eu não sou), mas é bom entender o básico de música.
Estudar softwares de áudio é algo prioritário. Programas de edição, sequenciadores, midi, plugins, multi pistas.
Creio que a pesquisa incansável é a chave para a produção de mashups. Ficar ligado nas novidades, pesquisar músicas do passado, músicas estrangeiras, construir uma boa discoteca e principalmente brincar com a música. Escutar um som e imaginar outro que caiba ali. Explorar os dois lados de um som estéreo em busca de vocais ou instrumental limpos.Explorar a frequência.

ANDRÉ PASTE: Ouvir e conhecer o máximo de musica possível, e aprender algum programa de edição de audio (como o ableton live)



5 - Eu sinto que o público confunde o conceito "montagem" com o conceito "mashup", afinal, qual a diferença entre os dois, no seu ponto de vista?

FAROFF: O mashup é o resultado de combinar duas (ou mais) composicoes para criar uma composicao nova. É a ideia do A+B de que o pessoal tanto fala. Muitas vezes, é legal que o público perceba que se está misturando diversas músicas, para poder diferenciar o mashup de um remix. Outras vezes, surpreender o público com uma mistura completamente inusitada também é bacana.
Difícil separar os dois conceitos. Acho que o mashup é um tipo de montagem. Montagem é um conceito mais amplo. Por exemplo, produzir batidas para uma faixa pode ser montagem, mas não seria um mashup, no conceito estrito.

JOÃO BRASIL: Para mim não tem diferença. Os dois são colagens sonoras. Para mim colagem é o maior termo. Mashup A+B, montagem, microsampling, music medley, ... são apenas diferentes estilos de uma mesma linguagem.

BRUTAL REDNECK: Eu não sei o conceito exato de montagem, mas o mashup pra mim tem esse sentido de não ser só uma colagem ou montagem sonora.Tem que ter arte e expressão seja no nome da música, no contraste radical ou absoluta harmonia de estilos, na ironia conseguida misturando frases, no desenho feito para a capa de um disco virtual, no video caseiro, na performance, na marca pessoal.
Saca aquele lance de dar o play simultâneo do disco "The dark side of the moon" do Pink Floyd e no filme "O mágico de OZ"? isso pra mim é o conceito de mashup.

Eu fico mais preocupado com a confusão que alguns fazem de mashup com pirataria! (risos)

ANDRÉ PASTE: Eu acho que montagem é um nome abrasileirado pra mashup.


Obrigado a todos!

LINKS:
FAROFF: myspace.com/fanfaroff youtube.com/fanfaroff
JOÃO BRASIL: www.myspace.com/joaobrasil www.365mashups.wordpress.com
BRUTAL REDNECK: http://www.myspace.com/bandatrilobit http://soundcloud.com/brutalredneck
ANDRÉ PASTE: http://twitter.com/andrepaste http://www.myspace.com/andrepastee

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A polêmica do remix nacional



Hoje recebi um email anunciando em letras garrafais "dj fulano com o melhor da MPB REMIXADA", e achei curioso, primeiro porque o termo "mpb" pra substituir o "música brasileira" já me soa estranho (em breve faço um texto só sobre isso), segundo porque, como DJ de música brasileira, fiquei tentando lembrar de remixes brasileiros de que eu goste muito e nao consegui, e terceiro porque achei extremamente limitado um dj só tocar um segmento de um estilo musical. Mas concluo que se está no email, atrai algum tipo de público, obviamente.

Ok, não vale a pena usar o termo "bom" ou "ruim" porque é muito relativo, seria uma discussão que não levaria a nada. Então sem querer classificar, apenas para situar: hoje em dia se pode observar que existem dois caminhos pra quem faz musica (independente delas soarem bem aos nossos ouvidos ou não): um é o espontâneo, sincero, é fazer musica em primeiro lugar pra se expressar artisticamente (a musica ser "comercial" ou não fica em segundo plano). O outro é fazer com o intuito prioritário comercialo: de vender, de ser vendável, consumido rapidamente, gerar renda.

O remix surgiu basicamente pra adaptar musicas pra pista de dança. Em sistemas de clubs (enormes, falam sub-graves, levam o som pra outra proporção e sonoridade, o que é bem diferente de ouvir em casa ou no fone), é necessário "enxugar" a musica, evitando que muitos instrumentos soem juntos (o que "embola", os deixa menos audíveis), pois naturalmente quanto menos instrumentos se usa, mais clareza punch se consegue dar a eles (regra básica de produção de áudio). Além disso os primeiros remixes eram chamados de "versões extendidas" pois incluiam introduções e breaks(só a batida) no final para facilitar a mixagem de uma musica para outra. Logo os remixes foram sendo conhecidos como "coisa de DJ" e logo DJs entraram numa de "se eu sou DJ, eu tenho que tocar só remixes.

Até aí tudo bem. A segunda camada da história é contextualizar o que acontece no Brasil. Como em muitos lugares do mundo, a "cultura DJ" (ou cultura club, dá no mesmo) foi importada, como em um comportamento de colonizado imitar o colonizador. Logo o termo DJ ficou com o conceito público de "aquele que toca musicas gringas, fora do nosso contexto cultural". Só que ja se passaram mais de duas décadas desde o surgimento desta cultura, e de poucos anos pra cá produtores do mundo inteiro passaram usar a cultura eletrônica nao em detrimento da sua própria, e sim somando à sua própria. É mais ou menos como acontece no movimento balkan beats ou ghettotech - são culturas locais adaptadas pra pista com influencias de batidas eletrônicas. É o mundo descobrindo o valor da sua cultura para a dança, antes apenas na vida noturna (nos maiores clubs com os maiores soundsystems do mundo) e de uns anos pra cá nos festivais de verão (uma cultura que tem estado cada vez mais forte e ainda não chegou pra valer no Brasil).

Voltando aos remixes: basicamente vejo que há dois caminhos seguidos pelos produtores: os que pegam a musica brasileira (geralmente a já pasteurizada, americanizada, afinal alguem já viu musica regional tocar nas rádios comerciais?) e a adaptam a uma moldura gringa (versões house, dance, techno, electro etc.) e os que tentam catalizar o potencial dançante da música original, a adaptando para grandes sistemas ou buscando uma sonoridade nova. Infelizmente ainda se vê muito pouco desse segundo caso. Os remixes brasileiros hoje em dia são quase todos encomendas de gravadoras que visam "gringalizar" a musica pra um publico jovem que desde cedo é acostumado a babar o que vem de fora e ignorar a cultura local, ou que simplesmente se acostumou com o padrão "musica de DJ".

As pessoas entendem pouco ainda sobre esse conceito de música pra grandes sistemas, por isso os remixes e a musica eletronica em geral ainda são mal-compreendidos. Uma vez fui chamado pra falar sobre esse tema na TVE, programa "Atitude.com". Me perguntaram "qual o sentido de fazer um remix do Jorge Ben (jor), por exemplo, se as musicas dele já tem um groove totalmente dançavel? E eu dei uma resposta que resume bem o que tou falando: "as gravacoes antigas ou as feitas pra tocar em casa nao exploram elementos que são muito mais perceptiveis em grandes sistemas. Os Sound systems foram evoluíndo, e ganhando capacidade de reproduzir mais frequências, como as graves. Se eu faço um remix dele, irei somar uma batida que complemente o groove original e adicionar frequencias subgraves. Aí, se voce ouvir a original e em seguida o meu remix em casa ou no iphone, vai achar quase igual. Mas se ouvir em um club, vai ver que é brutal a diferença".

Daqui pra frente prevejo, espero e tambem trabalho pra que cresça o numero de produtores que, curtindo a cultura club mas tambem valorizando a cultura nacional, façam produções que priorizem a nossa sonoridade, e não tentem formatar nossas musicas para um padrão criado em algum país nada-a-ver-com-o-Brasil. Até porque se a gente copia o gringo, deixa de ser original, e se a gente cria nossas sonoridades, a gente ganha o mundo, exporta pra tudo que é lugar.. O samba e a bossa nova que o digam. Tomara que a música eletrônica brasileira crie novos sons, além do funk carioca, oficialmente o único ritmo eletrônico inventado no Brasil.

domingo, 12 de julho de 2009

o triângulo da culpa


(Mais uma da série: "Ahh, como adoro psicologia"...)

Stephen Karpman, um professor de Análise Transacional, conceituou muito bem um mecanismo que está presente em praticamente todas as situações interpessoais e que tem me ajudado muito a identificar mais rápido a real causa de vários conflitos. Um texto chamado "the faces of victim", da Lynne Forrest me inspirou a escrever sobre isso.

Esse conceito mostra três formas de auto-vitimização, ilustrados pelo triângulo acima. O Perseguidor, o Salvador e a Vítima.

Quando não assumimos uma responsabilidade, começam a agir dispositivos inconscientes de reação que nos empurram para nos fazermos de vítimas, porque é mais fácil entrar nessa posição antes de nos sentir conscientemente culpados. Prestando atenção a esses dispositivos, fica muito mais fácil nao entrar nesse triangulo, e se relacionar com muito mais honestidade consigo e com os outros, sem entrar em "jogos", esses sim geralmente viram bolas de neve incontroláveis que fazem com que todos os envolvidos saiam perdendo.

Os "jogos" são posições manipulativas que contém truques, e começam a agir quando nos colocamos em uma dessas três posições (ou nas três): É importante identificar quando entramos ou estamos para entrar em alguma delas, porque inevitavelmente esses "truques" se voltam pra nós mesmos. Sem honestidade, ou seja, quando não observamos e assumimos a nossa realidade emocional sem máscaras, a negamos, e isso traz uma situação onde todos os envolvidos usam esses "escudos". Assim, fica impossível o entendimento ou uma visão do problema onde as partes possam assumir os erros (geralmente todos têm uma parcela de erro) e minimizar injustiças, sofrimentos e outros sentimentos que vão se acumulando (muitas vezes por anos a fio) e prejudicando todas as partes.

São as três Posições:

O PERSEGUIDOR


Quando ao invés de termos a posiçao, saudável e caratceristicamente paternal, de proteger e prover, ultrapassamos isso e entramos em uma esfera não produtiva, nos tornamos perseguidores. O perseguidor é aquele que aponta a culpa dos outros. Principais características:

- manipula usando o medo
- necessita que lhe temam
- necessita de pretextos pra justificar sua "raiva"
- elabora regras e força outros a seguirem
- se aproveita da inferioridade alheia
- aponta os defeitos, os realçando
- distribui a culpa (é a melhor forma de não assumir seus erros)

O SALVADOR


Quando ao invés de termos a posição, saudável e caratceristicamente maternal, de cuidar e nutrir, ultrapassamos isso entramos em uma esfera não produtiva, nos tornamos 'salvadores'. O salvador é aquele que se tornou o superprotetor, desrespeitando e atrapalhando o desenvolvimento independente do outro (que é a "vitima"). Possíveis características:

- precisa ser necessário para se sentir útil
- ao invés de fazer o outro encarar seu problema é conivente, usando justificativas para a sua incapacidade
- pode manipular pelo suborno
- oferece ajuda do tipo "muleta" para preservar uma relação de dependência
- Pode criticar e invalidar o outro, mesmo que bem sutilmente, de forma não detectada pela vítima (e, claro, por ele mesmo), para se afirmar "necessário, alimentando a relação de co-dependência.

A VÍTIMA

Quando ao invés de termos a posiçao de aprender por nós mesmos, nos tornando dependentes, nos tornamos vítimas. A vítima se convence da própria incapacidade e congela nessa situação de baixa auto-estima e dependência. Principais características:

- manipula pela chantagem emocional
- acredita que necessita ser perseguida ou "salva"
- acha que seus problemas sao enormes ou "não tem jeito"
- se coloca na posicao de indefesa ou incapaz
- se alimenta de culpa
- sabota esforços de ajuda, se colocando em dependência
- se ressente desta dependência.

O interessante é que frequentemente entramos nessas três posturas, as vezes ao mesmo tempo. As vezes dependendo da pessoa com quem nos relacionamos e muitas vezes com nós mesmos. Ex: nos acusamos de incapazes (perseguidor), comecamos a acreditar nisso (vítima) e para não encarar o problema mais a fundo, encontrando justificativas (salvador). Isso apenas gera um ciclo vicioso de culpa.

Outro exemplo bem conhecido: Queria ajudar ele (salvador), mas ele se voltou contra mim (vítima) e tive que me defender (perseguidor). Isso pode ser chamado de "ciclo de tirania".

Todas essas 3 posições vão acabar em culpa, ou seja, vitimização. E dai, pra que serve a culpa mesmo? Pra nada. Nossa história é calcada em culpa, mas qual a função mesmo dela? nos fazer arrepender? esse é o melhor aprendizado? Eu acho que é importante diferenciar: assumir erros e responsabilidades nao deve implicar em assumir culpa, arrependimento. A culpa é um sentimento castrador demais, gera vitimização e atrapalha justamente encarar responsabilidades.

CAUSAS

Se formos analisando e coando tudo isso, chegamos a conclusão de que a causa de tudo é negar ou não expressar nossos próprios sentimentos ou os dos outros e/ou não assumir responsabilidades e erros. Essa repressão gera culpa e vergonha, e, como qualquer repressão, acarreta em doenças emocionais ou em explosões repentinas, pois o cérebro sempre vai precisar - e encontrar uma forma - de "válvula de escape".

..

Pois é.. tanto estudo pra descobrir que o MENUDO é que tava certo.. Não se Reprima! :P

sábado, 11 de julho de 2009

Pobre Michael


A morte de Michael acabou que me trouxe reflexões importantes, porque trouxe peças do quebra-cabeças que faltavam pra entender seu drama. Ele estava mal, viciado em drogas há muitos anos. Foi confirmado, oficialmente, que ele estava dependente e consumia diariamente: Demerol, Vistaril, Dilaudid, xanax, Zoloft, Ritalina, prozac e Prilosec.

Quem tem problemas internos nunca conseguirá resolver eles com paliativos externos. Outro dia vi uma matéria sobre psicólogos estudando pessoas que teimam que querem fazer cirurgia plástica. E elas seguem sistematicamente o seguinte comportamento: dizem que só serao verdadeiramente confortaveis com sua aparência se mudarem o nariz.. mas dai depois que operam,continuam insatisfeitas, dessa vez querem mudar o queixo.. e depois a boca, e por aí vai, achando que será feliz se mudar tudo que "a incomoda". Da mesma forma buscamos sempre pretextos, to tipo "se eu ganhasse na Sena eu seria feliz".. Michael é a prova disso: um cara que tinha tudo na vida: boa fé, carisma, talento, muitissimo dinheiro e até muitas, muitas pessoas que fariam tudo por ele. Isso não o impediu de ter sérios problemas, e de desenvolver medo da vida. Tentou o dinheiro pra resolver "problemas" como a cor da sua pele e o tipo do seu cabelo, quando o problema tava lá dentro.. Michael era um menino medroso que nao queria encarar a vida, que se sentia, apesar de tudo, inapropriado a ela (como já vi ele confessar em entrevista).. e buscava fuga em quimicas, que obviamente o fizeram um viciado.

E por que ninguem o ajudou, se ele era tão amado? Simplesmente porque não adianta nem toda ajuda externa do mundo se a pessoa nao quer, verdadeiramente, mudar. Se a pessoa não consegue essa consciência por si própria, de dentro pra fora. E Michael não queria. Talvez tenha achado que quem tem tanto dinheiro nao precisa de psicólogo. Talvez ele tivesse medo até de perder o medo.. Ou de admitir pra si mesmo/pra alguem que precisava de ajuda psicológica.

Conversando com pessoas que já foram aos Narcóticos Anônimos (uma terapia "irmã"da dos Alcólicos Anônimos, de tratamento pra quem está viciado em qualquer droga) soube que realmente a fase mais dificil para tratar um vicio é a pessoa reconhecer que é um vicio, porque é normal que a pessoa só perceba/assuma quando já teve perdas consideráveis na sua vida. Como eles dizem, a maioria dos viciados nem "sabe" que é viciado.


O que é um vicio? Como saber se somos adictos?


A Organização Mundial da Saúde considera 7 critérios para definir um diagnóstico de dependência química. Se a pessoa se encaixa em pelo menos 3 desses itens que seguem abaixo, o diagnóstico é de dependência. Lembrando que em caso negativo, o uso abusivo pode ser desenvolvido e acarretar numa possível dependência. Lembrando, também, que dependência é uma doença incurável, deve ser tratada clinicamente. O primeiro passo do N.A. é reconhecer a impotência diante da droga e pedir ajuda.
Seguem os itens:

(1) tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:

(a) uma necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para adquirir a intoxicação ou efeito desejado
(b) acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade de substância

(2) abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
(a) síndrome de abstinência da substância (desconforto)
(b) a mesma substância (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumida para aliviar ou evitar sintomas de abstinência

(3) a substância é freqüentemente consumida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido.

(4) existe um desejo persistente ou esforços mal-sucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso da substância

(5) muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção da substância (por ex., consultas a múltiplos médicos ou fazer longas viagens de automóvel), na utilização da substância (por ex., ficar horas preparando o ritual de fumar maconha) ou na recuperação de seus efeitos

(6) importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso da substância

(7) o uso da substância continua, apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pela substância (por ex., uso atual de cocaína, embora o indivíduo reconheça que sua depressão é induzida por ela, ou consumo continuado de bebidas alcoólicas, embora o indivíduo reconheça que uma úlcera piorou pelo consumo do álcool).

Resumindo: sempre que a utilização contínua de uma substãncia comece a prejudicar outros setores da vida da pessoa.
O fato da pré-disposição ser uma "doença sem cura" quer dizer que nao importa quanto tempo a pessoa passe "limpa", a dependência pode voltar a qualquer momento e fazer o mesmo estrago.

e pra terminar esse assunto hardcore, um video perfeito pra se despedir do assunto "Michael". Uma pena que na vida ocorram tantos desperdícios por causa de medos e vicios..

(obs: pra quem tem fones vale a pena ver em High Quality: logo depois de apertar o play, clica lá embaixo HQ)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Complexo de perfeição


Um mal do nosso mundo atual, muito preocupante e muito pouco discutido, é o que eu chamo de "complexo de perfeição", e acomete muito mais as mulheres, justamente por consequência de uma sociedade atavicamente machista.
Fico admirado de, hoje em dia, conhecer cada vez mais mulheres talentosas, criativas, inteligentes e lindas que se acham muito pouco, e em casos de menor auto-estima, chegam a ficar congeladas numa redoma de medo imenso.. O medo de admitir suas características (tachadas como "imperfeições") mais que naturais. O machismo vem, ao longo dos tempos, acumulando cobranças em relação às mulheres, de uma forma surreal e desonesta. E, infelizmente, uma mentira contada depois de muitas décadas (nesse caso, séculos!) começa a ser internalizada como uma "verdade" e, nesse caso, como uma doença social. A crença de que se deve ser "perfeita" (conceito idealizado e inatingível, portanto uma receita perfeita para a eterna insatisfação) gera uma verdadeira fobia feminina  - já que esse mesmo machismo por outro lado é conivente com os erros masculinos - e esta fobia tambem não pode ser expressa.. pois revelaria mais uma "imperfeição"!

Some-se a isso a cultura feminina de competiçao acirrada - algo tambem incentivado por uma mentalidade machista - e aí está: o ambiente perfeito para que surja o complexo de perfeição.
A mulher acredita que PRECISA, alem de ser independente, inteligente, competente, multi-tarefas, tolerante etc., tambem seguir um padrão estético impecável e muitas vezes irreal.. Vê-se o quanto cada vez é mais comum a combinacao, principalmente na mídia, de anorexia e implantes de silicone, por exemplo.
Observem: quase toda mulher, de uma forma ou de outra, em diferentes graus, cai nessa cilada de acreditar na cobrança que lhe é imposta pelo mundo como condição para ser aceita.

Assim, seguindo o impulso de se esconder, as mulheres com complexo de perfeição podem até chegar ao ponto de não permitir que qualquer outra pessoa se aproxime perto o suficiente para enxergar qualquer coisa que elas acreditam ser uma imperfeição, e para isso desenvolvem máscaras sociais que podem ser muito grossas, impossibilitando relações mais profundas (com amigos, namorados, familiares e até maridos) e se sentem sozinhas, deslocadas e congelam na sua evolução pessoal e no auto-conhecimento, no contato com sua propria força vital intuitiva. É interessante observar que a maior parte dessas mulheres têm muitos admiradores e seguidores, pois passam uma imagem impecável, mas elas mesmo sabem que essa admiração é superficial: afinal é pela sua "máscara" e não por ela. Um grande exemplo disso é Marilyn Monroe, que foi vítima do seu próprio personagem artístico, que inevitavelmente se tornou uma máscara para lidar com o mundo, máscara essa que a isolou, como uma armadilha, e a fez muito mal, como se sabe. Ironicamente, por serem mulheres que vendem uma imagem de extrovertidas, elegantes, cultas, politizadas etc., têm uma imagem social muito positiva, e por isso é muito mais dificil que alguem desconfie do seu distúrbio, o que é mais um fator desfavorável para seu tratamento.

Então se faz o ciclo vicioso: Apesar de desejarem intensamente se conectar com os outros, as mulheres com complexo de perfeição têm medo da intimidade. Intimidade requer vulnerabilidade e abertura honesta. Apesar de ter uma índole honesta, íntegra e confiavel, em seu íntimo ela acredita que é incompleta, incompetente, cheia de defeitos, e não consegue se expor. Todos nós queremos ser incondicionalmente aceitos, mas quando não conseguimos nos aceitar a nós mesmos, é dificil acreditar que alguém realmente possa se envolver conosco.. e começamos a nos ver como farsas. Pensar que precisamos esconder nossos "defeitos" faz com que seja prioritário manter distância. Enquanto a mulher com complexo de perfeição tiver que manter seus segredos e negar sua verdade, a intimidade é inatingível. Portanto qualquer pessoa com mais visão que poderia ajuda-la a enxergar melhor seu quadro é afastada, obviamente, e algumas vezes, em casos extremos, transformada em uma espécie de monstro por ela. Isolada, e nutrindo revolta pelo quadro opressor, a mulher que nao enxerga esse processo claramente acaba se vitimizando, e a vitimização é uma forma de assegurar ainda mais alienação, não somente dos outros, mas principalmente de si mesma.

Esse quadro é um problema social cruel, mas atitudes agressivas ou radicais só podem gerar mais desentendimento e falta de sintonia. O caminho é uma compreensão, uma conscientização e uma crença maior, tanto das mulheres quanto dos homens, no poder feminino, principalmente o da sensibilidade e da intuição. Acredito totalmente que se a mulher se empodera, percebe que pode virar o jogo, e ao invés de tentar se enquadrar na expectativa machista, pode suprir uma carência do mundo de direção, afinal não ha nada melhor do que a visão feminina, sensível, equilibrada e livre de "impulsos testosterônicos" para dar uma luz para os homens... Para começar a acontecer uma mudança, é necessária uma mudança coletiva de consciência, e toda mudança coletiva começa com focos de discussão, para a questao deixar de ser tabu e que as pessoas entendam que é o caminho é passar pra frente essas idéias. Então que tal escrever, espalhar, discutir, destrinchar, denunciar o complexo de perfeição? Posicione-se a respeito do machismo, da "cultura photoshop", da cultura da comparação/competição, porque mania de perfeição só serve como uma grande pedra no caminho da felicidade feminina, e portanto, do mundo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Erros: por que tê-los?



O que é um "erro"? Antes que a gente discuta a relatividade do termo, vamos considerar que erro é uma ação que a própria pessoa julga, cedo ou tarde, como uma atitude que traz incovenientes, é destrutiva, prejudicial, leva a arrependimento.

Sendo assim, as vezes nos perguntamos: porque algumas pessoas precisam sofrer ou demoram tanto pra aprender algo, se outras que passaram por aquele aprendizado antes podem dar (e dão!)dicas de aprender o mesmo sem sofrer tanto?
Pensando bem, esse questionamento é ingênuo; as coisas não são tão simples assim. Imagina que chato seria bastasse ler um manual de instrucoes pra viver perfeitamente, sem errar? Imagina como as pessoas pareceriam zumbis se seguissem uma mesma fórmula pra fazer e aprender as coisas? (um parêntesis[redundante]: alias, essa é minha bronca principal em relacao ao ensino em geral: em vez de valorizar a criatividade individual, força o aluno a decorar como agir, padronizadamente, perante aos problemas, mas isso aí já é outra longa questão)

Errar é muito sadio. Primeiro, porque é como aquela história de "ver pra crer"... Livros ou conselhos podem até ajudar em alguns casos, mas o que ensina é a vivência. A vivência individual. Cada um deve desenvolver suas próprias formas de resolver seus próprios problemas. Por outro lado, querer impor uma experiencia pessoal a outra pessoa alegando "se importar com ela" é de uma ditadura até cruel, pois alem de ter aí embutida uma pretensão de que se pode saber o melhor pra outra pessoa, existe falta de respeito com o processo natural de aprendizagem individual do outro. Faça sua parte, colabore com sua visão e experiencia, mostrando que se importa com o outro, mas nao o critique em seu aprendizado. Deixe o outro errar! A voz da experiencia, por mais experiente que seja, precisa respeitar esse direito.

Mas daí vem uma segunda questão: Por que algumas pessoas erram e não aprendem, continuam errando no mesmo ponto e sofrendo repetidamente? isso eu já não sei ao certo, deve envolver muitas coisas dependendo do contexto: falta de visão, idealismo cego, orgulho, falta de humildade, fuga... Mas prefiro pensar que assim como cada um tem direito a aprender da sua propria forma, cada um tem direito de demorar o quanto deva pra aprender com o sofrimento sem ser censurado/criticado por isso.

sábado, 25 de outubro de 2008

DJ - uma profissao com cada vez mais responsabilidade..


As vezes encontro uns colegas de profissão que reclamam da inflação de DJs de hoje em dia. Dizem que em cada esquina tem um DJ, que filho de famoso ou modelo nao sabe o que ser e "vira" DJ, que o publico compra charlatões que tem um bom marketing etc. E eu sempre chamo atenção pro lado bom disso. Digo que com a quantidade de "paraquedistas" na area, finalmente o publico vai aprendendo a diferenciar.. Digo que quem é ruim, pode enganar alguns por um tempo, mas nao se sustenta. Sempre me alivia ver que DJs que nao gostam realmente de musica acabam nao se sustentando. Mas vim falar de outra historia, pra exemplificar a importancia de ser DJ hoje em dia:

Semana passada fui no meu banco, conhecer enfim o gerente (que está há anos lá), que tem cerca de 45 anos. No meio do papo, eu comentei que viajava muito e ele perguntou o que eu fazia, e eu disse que era DJ.
Entao ele falou “Po, então me diz uma coisa.. Essa semana mesmo estava conversando com um amigo meu, e estavamos nos perguntando por que até os anos 80 as musicas eram boas, tinham uma certa qualidade, e hoje em dia é tudo porcaria, descartável. É porque a geração de hoje é diferente, e eles gostam mesmo de lixo?”

Tentei ser resumido. Mas, como profissional da musica, tinha que dar uma resposta que esclarecesse bem. Então disse mais ou menos assim: “Não, eles nao gostam de lixo, eles são levados a consumir. Mas isso acontece por duas coisas: primeiro, nos anos 80 o marketing se sobrepos à música, à arte, portanto a prioridade passou a ser vender, e não oferecer música de qualidade. Isso forma um ciclo destrutivo: As gravadoras viraram indústria, e pararam de arriscar em coisas originais: só lançam o que elas tem certeza de que vai vender. Como eles são marketeiros, publicitarios, eles nao entendem de música. Por isso que esse esquema tá todo desmoronando agora. O outro motivo é que temos mais de 15 anos de jabá instaurado no Brasil. Ou seja: tudo que o publico ouve em radio e tv teve grana por fora pra ser veiculado. Isso reforça ainda mais o ciclo do primeiro motivo, entende?”
Ele pareceu entender o sentido da coisa. Ná próxima vou tentar ser mais resumido.. rsss.. é dificil, num assunto como esse.

O consumidor nem se toca desse processo de manipulação, muita gente ainda acredita que as radios e TVs selecionam o que há de mais interessante para mostrar ao publico, e não é verdade. As pessoas também não sabem que é uma máfia, envolvida com política até o pescoço, essa coisa de concessão de transissão de radio e TV.

E é por isso que o DJ será uma figura cada vez mais importante, porque só o DJ pode, dando a volta nesse sistema pobre e destrutivo que vê a musica como caça níqueis, pesquisar, selecionar o que ele, e o amor à musica dele, acham que é interessante, adequado, valoroso e servir de ponte entre a musica e o público. O problema tambem é os DJs terem essa consciência e/ ou conseguirem a liberdade de fazer um trabalho menos comercial. A maioria deles precisa trabalhar pra esse sistema, e acaba colaborando com o ciclo – de padronização cultural – ao inves de possibilitar a diversidade e liberdade musical.


veja tambem um texto meu que sobre o que é um bom DJ aqui.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

corpo, alma


Nossa cultura ve algumas coisas de forma muito curiosa. Sempre questionei a nossa relação psicológica com o nosso corpo. A gente constuma pensar no corpo como um “outro”, como algo meio independente de nós, como se ele não fosse nós mesmos, e sim um parceiro com quem temos uma relação de permuta: temos que tratar bem dele pra ele dar o que queremos. Em casos mais graves (e infelizmente mais comuns) o tratamos como escravos: damos o mínimo do que realmente importa a ele e exigimos que ele aparente o melhor possivel, porque não estamos realmente preocupados com ele, e sim com a imagem dele nos favorecendo.

Talvez haja uma supervalorização da “alma”, que é uma certa ‘entidade’ que nunca ninguem provou realmente que existe e a vemos independente do corpo. E na verdade o corpo vem primeiro, ele sim possibilita a alma estar sadia. Se nos preocupamos com o preparo e a sanidade do nosso cérebro, porque as vezes somos tão relapsos com nosso corpo? Muitas vezes ainda o sobrecarregamos: colocamos quimicas pra fazer ele agir contra sua vontade, contra seu ritmo e reações naturais, e literalmente nos agredimos sem a menor consciência. As pessoas tinham que ter o habito de amar mais seus corpos. Tirar um tempo do dia todo dia para senti-lo, observa-lo, acaricia-lo, ama-lo.

O corpo não é uma escultura, não é uma imagem pra atrair e impressionar. Ele é nosso veradeiro “templo”, ele é sagrado, ele é inerente e indispensável a nossa alma, ele nos protege, ele nos dá liberdade, nos apóia, nos dá sensações, quarda nossas recordações e histórias de vida. Recordo uma história em que a Fernanda Montenegro reagiu a uma critica sutil as suas rugas dizendo “tá louca que eu vou tirar elas? Você não sabe quanto tempo de vivencia eu precisei pra adquiri-las!”.

Nosso corpo nos dá dimensão, volume, nos liga a terra, nos faz sentir que existimos. Acho que pode ser destrutivo pensar no corpo como um recipente que abandonamos pra voar para um plano melhor, ou supervalorizar a “alma” (o que quer que ela seja) reduzindo o corpo a um veículo provisório. Talvez esse seja um dos motivos que nos faz tão relapsos com nosso corpo, uma herança de séculos de crenças que o diminuem. Além do mais, se voltar pro próprio corpo é um exercicio de auto-conhecimento. Aceita-lo em sua diversidade, sem impor a ele que siga um padrão pré-estipulado-por-sabe-se-lá-quem é preservá-lo de uma tirania, se recusando a banaliza-lo. É principalmente se conectar com sua verdadeira essência, algo raro nos dias de hoje.

Sem o corpo, não há alma. Nossa energia pode até transmutar em outras coisas, mas nossa consciência, desta forma que temos hoje, só vai existir mesmo nesse nosso injustiçado corpo. Acho que o ser humano só ganharia supervalorizando menos a “alma” e valorizando mais seu querido corpo.

domingo, 19 de outubro de 2008

VAMPIROS DE IMAGENS


As vezes acho que a festejada "cultura do individualismo e da liberdade" é uma desculpa pra ainda mais alienação: é como houvesse um plano para, através da 'maquina do sistema', primeiro se tirar a cultura, a intuição e até a liberdade das pessoas e faze-las de ovelhas que acreditam que tem livre arbítrio, qualidade de vida e um rico leque de opções de vida. Então, aproveitando que elas estão sem esses privilégios, depois a fazem acreditar que os valores estão baseados em consumo, e além de venderem supérfluos insalubres, ainda vendem "antídotos", num processo parasitário. Diante desse quadro, sobram carcaças vazias que vivem pra trabalhar (e nao trabalham pra viver, o que seria o ideal) e tudo entra em um ciclo vicioso: diante dessa pressão pela produção a todo custo, não têm sequer tempo para buscar alternativas ao pré-moldado que lhes é empurrado. Frustradas, as pessoas tentam preencher esse vazio de forma errada, paliativa. E adivinha quem tambem dá esse paliativo de forma fácil e tambem pré-moldada? Não precisa ser visionário pra sacar que é a mídia. Tanto a industria de "entretenimento" - a espetacularizacão de tragédias, de produção de "ícones-ilusões-de-ótica" - quanto a midia que está mais em "plano real" - a publicidade. O negócio é criar uma imagem agregada a um status social e vende-la (assim como é feito com as mercadorias de consumo) como indispensável.

Ok, há séculos a historia da humanidade tem se baseado em imagem. Já na idade média a aristocracia vivia de uma imagem, uma máscara, e era seguida pela burguesia, que tambem tinha como um dos valores prioritários cultuar e perseguir essa imagem aristocrática e ostentar, glamourizar e mascarar sua vida. Assim se pode ver na obra de vários artistas que satirizavam a hipocrisia social como Moliere (As Eruditas), Balzac (especialmente "Comédia Humana"), Oscar Wilde (Retrato de Dorian Grey). Como evoluimos, obviamente nossas doenças evoluem junto. Hoje a mídia não só vende o culto de status ou objetos, mas pior: cria e vende, com toda a parafernalia tecnologica de que dispõe, a imagem desses objetos, que obviamente não condizem com a realidade. Tudo é espetacularizado, glamourizado, vendido como "modelo". Desde a rotina de "big brothers" até a vida de jogadores de futebol, de infelizes assassinos a atrizes e apresentadoras de televisão cujo unico curriculo é terem dado pra homens famosos..

Assim se faz uma relação de fetichismo popular por imagens idealizadas, junto com uma frustração, a de nunca alcançar estas imagens. É uma relação nada sadia: ao mesmo tempo há a admiração / a inveja; a super-valorização do outro / a desvalorizacao do self. Isso dificulta ainda mais as pessoas de entrarem em contato com sua grande verdade - que sempre está dentro delas mesmas. Buscam, desesperadas, representantes de dimensões de humanidade que o homem comum já não reconhece - o que dirá encontra - em si mesmo.

Predomina a imagem sobre a personalidade, a aparência sobre a "essência", e isso é uma das maiores características da cultura urbana contemporânea. Como o mercado é totalmente mancomunado com os meios de comunicação de massa, a mídia produz os sujeitos de que o mercado necessita, prontos para responder a seus apelos de consumo, numa simbiose de dois monstros parasitas. Por outro lado, o consumidor vive para valores fúteis que o fizeram crer como essenciais, e se torna tambem um vampiro, pois por mais que consuma o "remédio" dado, sempre estará sedento, sem saber exatamente de quê. Só que ele é parasita de si mesmo, ou melhor, ele é um cúmplice do parasitismo sem perceber, pois se permite parasitar.

Até a espiritualização virou indústria, aliás, uma das que mais arrecada dinheiro. Pois é óbvio que as pessoas, diante desse vazio, percebem que mesmo consumindo, a aflição do esvaziamento de essência e sentido continua. E vão buscar um lenitivo mais forte, a suposta "espiritualidade" que supostamente deveria se basear na riqueza da troca com o mundo e a busca de auto-conhecimento e hoje vem tambem em forma de mercadoria, pré moldada, de fácil consumo. Claro que é preciso ter "fé" em qualquer coisa que pareça uma bóia de salvação para desconcentrarmos desta falta de sentido, esse empobrecimento e massificação dos nossos valores essenciais.

O resultado é, como tudo em uma sociedade imediatista, um apodrecimento, um esgotamento das bases, e um inevitável desmoronamento da estrutura atual, que já está em plena decadência. Talvez se não fosse por esse imediatismo, todos iriam enxergar que todo mundo acaba perdendo com um empobrecimento geral de uma sociedade que só consegue "enriquecer" às custas destas vidas expropriadas, e baseadas em ilusões. É ilusão pra te vender coisas, é ilusão pra te fazer alimentar mal, é ilusão pra te vender remédios e soluções milagrosas pra todo lado. Há parasitismo em mais lugares do que se parece, o que deixa todos debilitados. E é dificil enxergar esse empobrecimento justamente porque faz parte do jogo o sistema fechar os olhos das pessoas para isso, fazendo-as acreditar que, abarrotadas de mercadorias, gozam de uma riqueza excepcional, o que as deixa ainda mais perplexas.

Saídas práticas e positivas? Aprender a identificar os "parasitas", compreender toda essa "máquina descontrolada" e passar adiante a compreensão, não pregando, mas informando, proporcionando pensamento, discussão, reflexão. Talvez sua missão no mundo inclua isso, quem sabe? ;)


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Dedicado à minha amada e iluminada Aleta.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

machismo vs feminismo

barbie-mulher-maravilha: desde cedo as meninas ja sao subliminarmente programadas para o modelo de perfeicao feminina, e claro que de um ponto de vista masculino.

A gente nao se dá conta, mas há uma guerra dos sexos, de pano de fundo, na nossa cultura. E sempre haverá, enquanto a maior parte nao enxergar e desvendar as desigualdades envolvendo os gêneros. De um lado, uma sociedade que ainda tem uma herança machista, que oprime e pressiona a mulher de uma forma principalmente tácita. Do outro, mulheres que não se conformam com essa desigualdade e ficam num dificil lugar onde se dedicam a chamar atenção para os desequilibrios entre gêneros e machismo do mundo. "Dificil", porque é um ingrato posicionamento ideológico: se por um lado se tem que puxar a balanca pro centro, se faz uma força oposta muito grande. Por isso as pessoas confundem esse conceito do feminismo, que nao é o contrario do machismo, e sim uma tentativa de proteção contra o machismo. E tambem por isso que é tão comum defensoras da igualdade feminina cometerem o feminazismo, o radicalismo geralmente contendo rancor e raiva, que é igualmente despropositado e destrutivo. Porque só alimenta essa "guerra de sexos". E lutar pela paz é um contrasenso, e um pecado recorrente de muitos militantes: a linha que divide militância e radicalismo é muito tênue.

Vi um filme em Barcelona, numa exposicao dedicada a Agência Magnum, chamado Aka Ana, filmado em 2006 em Tóquio, do diretor francês Antoine D'Agata. O filme mostra depoimentos, dos mais profundos, de prostitutas japonesas, e uma fotografia que te leva ao mundo mais íntimo delas. Saí da sala de projeção estarrecido. Foi uma experiência muito forte, porque nunca vi um filme que falasse de uma forma tão crua e profunda da natureza feminina, da fragilidade que envolve a sua condição, da questão de lidar com a sexualização do mundo regido pela visão masculina, das 'leis' que a vida impõe à mulher, ainda mais naquele contexto. Isso tudo se intensificou ainda mais porque estava acompanhado de uma amiga que ja teve uma experiencia de estupro. Realmente sai branco, com olhar perdido e a consciência de que provavelmente nenhum homem vai um dia saber exatamente o que é, realmente, a condição feminina, os conflitos, a responsabilidade de ser tanta coisa que lhe é projetada, a pressão da sociedade em tantos aspectos, a subjetividade e sobretudo o milagre da maternidade. E isso me faz compreender mais as mulheres que piram com isso, e as vezes passam dos limites. Nao é pra menos.

E por este equilibrio homem-mulher ser uma condição tao delicada, e por serem necessários tanta evolução e altruismo da raça humana para lidar de forma equilibrada a respeito, não sou otimista. Como o mundo está cada vez mais individualista, as pessoas cada vez mais fechadas e incapazes de se relacionar, compreender e tolerar as diferenças, do jeito que as coisas estão cada vez mais imediatistas e capitalistas (em uma sociedade onde todos querem comprar as soluções, e nao trabalhar por elas) eu cada vez mais acredito em uma antiga profecia minha:
Como sou fã de ficção cientifica e de previsões fantásticas, acho que nesse seculo nós ainda vamos presenciar um conflito social (e sexual) gerado pela tecnologia. Se imaginarmos que não ha limites tecnologicos, um dia desses os japoneses vao lancar uma sofisticada mulher artificial para fins sexuais (como ha em blade runner, meu filme preferido). E eu acho que os valores dos centros urbanos do mundo tao caminhando pra um lado tão vazio e consumista que isso vai ter um mercado grande entre infelizes homens solitários, acomodados, imediatistas, sem vivencia ou simplesmente machistas e misoginos, em um mundo cada vez mais regido por imagem e menos por valores essenciais. E certamente vai gerar uma (in)revolução de costumes. Se pararmos pra imaginar as possibilidades, nao é nada animador. Mais um exemplo de que a tecnologia, se usada somente pra suprir o comodismo e imediatismo humano, pode ser uma enorme inimiga.

Será que o ser humano vai acordar a tempo para resgatar (Desde ja) a vida de verdade? Resgatar o valor da complexidade tão bela das relações, que são essenciais pra nossa evolução como humanos?
Veremos nas proximas décadas, mas correndo o risco de parecer feminista (ou machista, pra alguns pontos de vista), sinceramente eu acredito que a mulher tem até mais poder pra mudar esse destino - espalhando sua compreensão e sensibilidade, se negando a ser o que o mundo machista espera dela para ser ela mesma e botando pra fora o seu poder e sua inteligência emocional, que são tao reprimidos, há tantos seculos, que precisam de uma sacudida pra acordar realmente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

london




Passagem rapida por Londres pra encontrar meu publisher, que lancou meu primeiro CD (Dr.K - SwingSambaLounge), que fiz ha 5 anos. Colocamos papos em dia, atualizamos contratos e fizemos planos pra tour do ano que vem. Fiz uma sessao de fotos pra imprensa pro Dr.K no Tate museum. Adorei a 'equipe' da Curve Music (Lizi, brasileira, e o Greg ruivao), e o fotografo brasileiro Arthur. Deu tempo de passar uma tarde passeando pelo Soho vendo lojas de discos e camisetas bacanas. Terca conheci finalmente o Guanabara, o famoso Club Brasileiro. Um clima bom, cheio de brasileiros e, claro, ingleses que querem encontrar gente que tem dendê e samba no pé. Hehe.

Londres eh a capital mundial do "sorry". Incontaveis os sorrys que escutei nesses 2 dias. Concluo que seja, por isso, o lugar mais civilizado do mundo.
Londres ta mais cara que nunca. Dois dias apenas, e so pra locomocao dentro da cidade (metro, onibus e trem pro aeroporto) foram 28 libras, o equivalente a uns 85 reais... Tem que ter cacife.

Momentos mais marcantes:

- Ver pela primeira vez o meu primeiro cd em formato fisico, e com selo prateado holografico e tudo. Ele foi prensado na Ucrania e em breve sera na Inglaterra.
- Ser clicado por uma rolleiflex 1948
- Ver o trabalho de artistas brasileiros cobrindo as paredes externas do Tate museum
- Receber o carinho e respeito do pessoal da Curve Music. Sou o unico DJ/Produtor do label, e recebi elogios do album do tipo "classico desde que nasceu", "parece uma viagem de aviao, comeca ja decolando, te deixa descontraido e acaba chapante", "quase abriu um buraco no cd, porque nao saia do meu cd player", "me faz dancar em qualquer lugar sempre que eu o ouco".

sábado, 2 de agosto de 2008

bristol 2


Bristol parece uma Londres mais relaxada, tranquila, pessoal muito amigavel, tou curtindo bastante.  Ontem toquei na Festa Brazilian Beatz (foto acima), 400 pessoas amarradonas pra ouvir so musica brasileira a noite toda, e a maior parte de ingleses, o que eu prefiro, pois voce pode entrar mais num conceito, mostrar coisas novas que eles se amarram. Fiz meu live e toquei muitas coisas de musica brasileira com influencia de ritmos eletronicos. Claro que o som do club era uma maravilha, os subgraves batendo bonito e fazendo todo mundo feliz.

Na pista 2, o lendario DJ Derek 75 com um corpinho de 74, tocava com com MDs um reggae de primeira qualidade, e ainda dava uma de MC com sotaque jamaicano! Amazing.

A noite foi perfeita. No dia seguinte eu encontrava as pessoas pela cidade e todos varios me disseram como se amarraram, adoraram a diversidade e a mistura de estilos com a musica brasileira.

Dormi na casa do Claudio, um dos socios da festa e professor de capoeira que coordenou a roda que se apresentou no meio da noite, e que foi excelente. Ele entrou pra imortalidade quando gravou a controversa introducao do ultimo disco do portishead. Foi contratado por 300 libras pra recitar um pequeno texto em portugues, e me falou que o texto nao tem nada de radicalismo religioso, apenas eh um texto falando de karma, dizendo que o que voce faz, sempre volta pra voce em triplo. Ainda disse que o pessoal do portishead ia gravar em espanhol, mas resolveram em portugues devido a popularidade do Brasil por aqui.
Foi legal amanhecer em Totterdown, o bairro que eu ja conhecia apenas de ver em um clipe do portishead. 

Hoje toquei pre centenas de pessoas num festival que foi das 11 as 19h, com o Kacey, entre as bandas. A que eu mais gostei foi a banda de swing-folk-jazz-balcanica Sheelanagig, que mostrou que tem muito ingles com swing, num show divertidissimo e performatico. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

bristol


Cheguei na terra do drum'n'bass e do reggae. Cidade do Banksy! Bristol me parece bem legal. Olhem a estacao ferroviaria, que graca.
Meu camarada Kacey, um ingles descendente de iranianos que adora o Brasil, me encontrou no meio da rua depois da gente desencontrar na estacao (segunda vez que acontece isso na viagem, muita coincidencia) e fomos tocar ontem uma festa de caridade num clubzinho local. Quando entrei, um dj e dubstep tocando e os subgraves bombando. Subgrave eh que nem uma droga, fez efeito na hora e eu gritei BRISTOOOOOL!!!! :) Dancei muito, logo depois tocamos e depois, drum'n'bass. Db eu sempre gostei, mas eh aquela coisa.. entrou numa formula ha um tempao e todos os djs que ouco me soam cansativos. O que eh mais legal eh o MC.. ontem havia dois excelentes.
Os ingleses sao aquela coisa: Otimos pra festa, bem dispostos. Mas dai encontrar algum que dance bem eh outra historia.. Kacey me falou que as mulheres adoram as festas brasileiras que ele faz, mas os homens ficam intimidados porque nao sabem dancar aquele tipo de musica.

Hoje vou tocar com Kacey de novo, e na pista 2, o lendario DJ DEREK, esse do video ai acima. Observem a figura lendaria de um DJ de 75 anos venerado pela garotada local. Bristol, a Jamaica inglesa, eh demais.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

conto infantil


Minha filha uma vez me confessou que morre de medo da professora perguntar algo que ela nao saiba responder. Disse que quando isso acontece, eh "uma das piores sensacoes da vida dela", e ela fica sem acao, os olhos enchem de lagrimas. Expliquei que ela tem direito de errar, que ninguem nasce sabendo, que nao eh vergonha alguma nao saber de algo. Ate apelei pro argumento de que ela eh crianca, que crianca nao precisa se preocupar com nada, isso de levar tudo muito a serio eh coisa de adulto. Claro que nao adiantou, ela alegou que "eh dificil mudar, certas coisas nunca mudam"

Entao fiz um continho infantil pra ela.. com muito amor. Transcrevo aqui pra exprimir minhas saudades.

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Era uma vez duas irmãs gêmeas: Lelê e Lili. Elas eram iguais em tudo, menos em uma coisa: A Lelê levava susto com tudo, e a Lili nunca se assustava. Ninguém sabia porque que as irmãs eram tão diferentes nisso. Quando alguem dava susto na Lili, ela ria, e não tinha medo. Já a Lelê ficava com muito medo de levar qualquer susto, o que deixava ela mais nervosa ainda. Qualquer relampago, bombinha de são joão, porta batendo ou até sombra a assustava, e toda hora tinha um novo susto, por isso Lelê chorava todo dia, dormia mal, e passava o dia cansada. Tambem nao queria fazer coisas diferentes, porque tinha medo de coisas novas: so queria ver televisao, porque quando assistia programas e desenhos era a unica hora que ela se esquecia do medo dos sustos. Na hora de dormir, Lelê nao deixava a irmã apagar a luz, porque no escuro, já que ela nao podia enxergar, tinha ainda mais medo de levar sustos. E Lili não entendia o motivo da irmã ser tao ansiosa. Muitas vezes Lili ate se divertia assustando Lelê, e achava que dando mais sustos um dia ela se acostumaria, mas na verdade Lili nao sabia que pra Lelê era MUITO horrivel levar susto, era uma das piores sensações. Um dia ela notou que a Lelê estava cada vez mais seria, triste e nunca se divertia, e ficou preocupada com sua querida irmã. Finalmente Lili se colocou no lugar de Lelê e entendeu como ela via e sentia as coisas de uma forma assustadora. Assim, passou a ajuda-la, não dando mais sustos, para a irmã ficar mais calma. Mas Lelê continuava assustada por tudo. E não adiantava dizer para ela que não tem motivo pra levar susto, porque Lelê ja sentia susto antes mesmo de pensar.

Uma vez os seus pais sairam de noite e elas precisaram ficar sozinhas em casa. Lelê ficou apavorada, e Lili dizia, calmamente, que não tinha motivo para ter medo. Lelê dizia que podia aparecer um fantasma na casa, mas Lili dizia: não existe fantasma, e mesmo se existise, eu faria amizade com ele! Entao elas foram brincar, mas Lelê sempre com medo. Quando estavam brincando de boneca, um vento fez a cortina da janela balancar, Lelê viu a sombra da cortina e levou um grande susto. Quis sair correndo e sua irmã falou: "olha, não foi nada, foi so o vento, ta tudo bem" e trazia Lelê de volta para o quarto pela mao. Lelê ficava toda hora olhando a janela, com medo, e de repente a irmã teve uma ideia para ajuda-la: Falou: "Lelê, ja sei porque você leva tanto susto. E so porque você tem MEDO de levar susto!" Lelê respondeu "Como assim? Não entendi" E a irmã explicou melhor "Se você não tiver medo, ai nao toma susto! Vou te mostrar: Deita aqui e fecha os olhos que eu vou tentar te dar um susto." Lelê demorou muito pra fechar os olhos, porque tinha medo ate do susto dado pela propria irmã, mesmo ela avisando que ia dá-lo! Depois, acabou deixando, e Lili fazia "BUU!" e Lelê pulava de susto, mas depois ela comecou a relaxar, e depois de umas dez vezes ela viu que não tinha motivo pra ter medo e levar susto. Então quando Lili fazia "BUU!" ela comecou a rir. E depois de vinte vezes, ela ja achava a palavra "BUU!" tao boba que ria mais ainda, porque não achava mais assustador, na verdade "BUU!" era ate uma palavra engraçada, e não tinha motivo pra ter medo dela! Passou a achar a palavra "BUU!" a mais engraçada do mundo.

As irmãs cresceram, e quando ja eram adultas uma vez Leticia falou pra Lisbela (eram seus verdadeiros nomes): "Irmã, nunca te falei isso, mas aquele dia em que você ficou me ensinando a não ter susto foi um dos mais importantes da minha infancia. Depois daquele dia passei a ver as coisas de forma diferente. Ao inves de ter medo do susto, eu tinha é coragem, e quando eu cresci mais eu entendi que é igual com todos os problemas da vida: Eles aparecem toda hora, e se você tem medo deles, eles são horriveis e tiram seu sono. Mas se você sempre vai em frente sem medo dos problemas, quando eles aparecem você sofre menos, e sabe lidar com eles de uma forma muito mais calma. Nunca te agradeci por isso, e quero dizer o quanto foi importante pra mim, e te agradecer agora". E deu um abraco forte na irmã. Entao, abracadas, dessa vez foi Lili que chorou. Não de susto, mas de felicidade.

terça-feira, 29 de julho de 2008

idiossentropias

   (foto: eu mesmo, ontem)

idioss
- vem de idiossincrasias. Coisas do meu universo interno particular mesmo. Voces sabem, eh a primeira vez que tenho um blogue particular. E eh estranho, nao sei se tenho muito jeito pra coisa, afinal.
entropias - eh o caos, a desordem. Porque eh assim que eu escrevo mesmo. Se eu fosse bom, ja teria partido pra coisas mais profissionais.
Mas como eh um blogue informal, sem compromisso de ser muito politicamente correto, e so pros queridos amigos mais intimos (e nerds), tudo bem.. Se eu escrevo umas linhas mal tracadas  ta tudo em casa. Eh so comentar, argumentar, sugerir. Mais deixem o nome no comentario se nao sai "anonimo".. e dai nao rola uma troca, que eh o sentido da coisa mesmo.

abs

um passo a frente.. e vc nao esta mais no mesmo lugar

Depois de 5 dias em Milano, minha viagem entra numa nova fase, e me mostra cores que eu nao tinha experimentado antes. A experiencia de tocar num festival Latino foi muito valida, e o pessoal por aqui teve um reconhecimento do trabalho que me surpreendeu. Num nivel mais pessoal, tou conseguindo aproveitar mais a viagem, curtindo o agora. E percebo o quanto eu posso ser dedicado: No momento em que resolvo me dedicar integralmente a minha viagem, ela realmente comeca a me surpreender. Podem haver decepcoes isoladas, mas quando voce se da bem com a vida, nao tem tempo ruim. Pode haver ignorancia por toda a parte, mas quando voce tem carinho e tolerancia com tudo, encontra sempre onde ta a luz, e sintoniza com o que eh importante pra voce, atrai pessoas com mentalidades afins, mesmo que esteja num lugar onde nunca espera que isso aconteca. Ou seja: a vida nunca decepciona! Esse eh o meu maior aprendizado ate agora, e estou me sentindo completo por estar passando por essa vivencia. Vejo como eh importante pra mim me permitir a experiencias onde posso exercitar o meu improviso com a vida, que pra mim eh o tipo de vivencia que mais ensina no mundo.

Italia eh um pais unico, foi muito bom vir pra ca pra quebrar alguns preconceitos meus, inclusive. Ate entendi mais os preconeceitos dentro da propria italia, onde ha rivalidades entre as regioes. Hoje ganhei um cd de uma banda italiana chamada PARTO DELLE NUVOLE PESANTI, que tem o som baseado na musica tradicional do sul da Italia, como a tarantella. (Aqui da pra ouvir uma musica deles, num video satirizando o presidente italiano, que consegue ser mais patetico que o bush). A tendencia mundial eh que grupos valorizem cada vez mais suas raizes, tenho dito isso ha um tempo e cada vez mais acontecendo. Agora estou louco pra conhecer a Sicilia.

Percebo a cada dia que meu caminho eh buscar a essencia das raizes. Que a melhor forma de entender e lidar com a vida eh se livrar o maximo da futilidade de desejos glamourosos (que se analisados, so visam um status futil) e se aproximar da simplicidade das pessoas de 'verdade'(pra mim a maior parte delas certamente nao esta na minoria que eh muito privilegiada financeiramente) e dos ritmos, cores e lugares 'vira-latas', e eh por isso que gosto cada vez mais do Brasil.

Como a a troca, a vivencia, a interacao sao a coisas mais prioritarias pra mim, eu tendo a acreditar cada vez mais que o grande mal do mundo atual eh que ele eh regido por pessoas sem vivencia o suficiente, no sentido de interagir, trocar, se relacionar mesmo com os outros. Esta tomando o poder, a partir de agora, toda uma geracao que cresceu fechada nos seus apartamentos, seus carros e seus escritorios, e confesso que isso me preocupa..

quarta-feira, 23 de julho de 2008

u-hus

ilustracao:Shag

Sempre tive dificuldade de entender quem acha a vida chata, "dura" ou sem opções.
Pra mim a vida é uma sucessão de descobertas. A sensação de que, mesmo que eu viva 101 anos, não terei tempo pra conhecer, aprender, ver e curtir tudo que quero é uma das minhas maiores frustrações. Talvez a única realmente..

Estou sempre descobrindo estímulos... E, claro, sempre procurando formas de descobrir mais. Acho que assim se pode ter uma vida excitante sempre, afinal, o que não faltam são estímulos nesse mundão. Everywhere. Os problemas, então.. são os estímulos mais desafiadores! Não tenho medo deles.

E olha que eu podia reclamar, porque alem de ter como principal fonte de renda uma sub-profissão, é também uma sub-profissão dentro de um meio artístico.. Posso não ganhar dinheiro, mas me divirto um pouco! ;) Pelo menos é uma sub-profissão com uma ideologia clara. Pra mim a ideologia é fundamental, é o diferencial de ser um bom profissional.

Me ocorreu agora: viver é como discotecar. É uma função coletiva, social, mas em primeiro lugar você tem que tocar pra si mesmo, afinal se não tiver prazer naquilo, não vai passar esse prazer pras pessoas.
Se você tem um repertório pequeno, tudo vira rotina. Se você tem um repertório maior e rico, pode escolher exatamente o estimulo adequado pra cada momento.. se tiver o feeling, claro. Por isso é a junção do esforço de sempre conhecer novos estímulos (a chamada pesquisa de repertório e forma de mostrá-lo, que nunca acaba) com sempre sentir a atmosfera, como as coisas vão fluindo. E dançar conforme a musica também, claro. (O que seria de nos se tivéssemos os quadris rígidos? Vejo claramente que é terrível ser rígido, levar certas coisas muito a serio ou só se satisfazer se algo acontece naquele padrão pré-determinado pela nossa cabeça.)

Um DJ sabe também que uma pista não deve ser o tempo todo super-estimulante ou apelativa. Por exemplo: é fácil fazer uma criança gostar um doce atrás do outro (overdose de açucar que não nutre). Mais dificil é fazer ela apreciar o sabor mais sutil de uma fruta, de uma verdura.. rsrsrs.. Na pista é o mesmo: Existem as transições, existe o esfriamento, a troca de feelings, o relaxamento pra depois o estimulo volte com mais força e mais prazeroso. Toda boa história tem altos e baixos, e um DJ, como o maestro dessa "historia", deve saber conta-la com continuidade e coerência. E deve sobretudo saber o perigo da "facilidade dos U-hus", que não devem ser gratuitos, fáceis, se não as coisas vão ficando genéricas e mundanas demais. . Afinal, quem se vicia em hiper-estímulos deixa de reagir aos estímulos sutis.