domingo, 12 de julho de 2009

o triângulo da culpa


(Mais uma da série: "Ahh, como adoro psicologia"...)

Stephen Karpman, um professor de Análise Transacional, conceituou muito bem um mecanismo que está presente em praticamente todas as situações interpessoais e que tem me ajudado muito a identificar mais rápido a real causa de vários conflitos. Um texto chamado "the faces of victim", da Lynne Forrest me inspirou a escrever sobre isso.

Esse conceito mostra três formas de auto-vitimização, ilustrados pelo triângulo acima. O Perseguidor, o Salvador e a Vítima.

Quando não assumimos uma responsabilidade, começam a agir dispositivos inconscientes de reação que nos empurram para nos fazermos de vítimas, porque é mais fácil entrar nessa posição antes de nos sentir conscientemente culpados. Prestando atenção a esses dispositivos, fica muito mais fácil nao entrar nesse triangulo, e se relacionar com muito mais honestidade consigo e com os outros, sem entrar em "jogos", esses sim geralmente viram bolas de neve incontroláveis que fazem com que todos os envolvidos saiam perdendo.

Os "jogos" são posições manipulativas que contém truques, e começam a agir quando nos colocamos em uma dessas três posições (ou nas três): É importante identificar quando entramos ou estamos para entrar em alguma delas, porque inevitavelmente esses "truques" se voltam pra nós mesmos. Sem honestidade, ou seja, quando não observamos e assumimos a nossa realidade emocional sem máscaras, a negamos, e isso traz uma situação onde todos os envolvidos usam esses "escudos". Assim, fica impossível o entendimento ou uma visão do problema onde as partes possam assumir os erros (geralmente todos têm uma parcela de erro) e minimizar injustiças, sofrimentos e outros sentimentos que vão se acumulando (muitas vezes por anos a fio) e prejudicando todas as partes.

São as três Posições:

O PERSEGUIDOR


Quando ao invés de termos a posiçao, saudável e caratceristicamente paternal, de proteger e prover, ultrapassamos isso e entramos em uma esfera não produtiva, nos tornamos perseguidores. O perseguidor é aquele que aponta a culpa dos outros. Principais características:

- manipula usando o medo
- necessita que lhe temam
- necessita de pretextos pra justificar sua "raiva"
- elabora regras e força outros a seguirem
- se aproveita da inferioridade alheia
- aponta os defeitos, os realçando
- distribui a culpa (é a melhor forma de não assumir seus erros)

O SALVADOR


Quando ao invés de termos a posição, saudável e caratceristicamente maternal, de cuidar e nutrir, ultrapassamos isso entramos em uma esfera não produtiva, nos tornamos 'salvadores'. O salvador é aquele que se tornou o superprotetor, desrespeitando e atrapalhando o desenvolvimento independente do outro (que é a "vitima"). Possíveis características:

- precisa ser necessário para se sentir útil
- ao invés de fazer o outro encarar seu problema é conivente, usando justificativas para a sua incapacidade
- pode manipular pelo suborno
- oferece ajuda do tipo "muleta" para preservar uma relação de dependência
- Pode criticar e invalidar o outro, mesmo que bem sutilmente, de forma não detectada pela vítima (e, claro, por ele mesmo), para se afirmar "necessário, alimentando a relação de co-dependência.

A VÍTIMA

Quando ao invés de termos a posiçao de aprender por nós mesmos, nos tornando dependentes, nos tornamos vítimas. A vítima se convence da própria incapacidade e congela nessa situação de baixa auto-estima e dependência. Principais características:

- manipula pela chantagem emocional
- acredita que necessita ser perseguida ou "salva"
- acha que seus problemas sao enormes ou "não tem jeito"
- se coloca na posicao de indefesa ou incapaz
- se alimenta de culpa
- sabota esforços de ajuda, se colocando em dependência
- se ressente desta dependência.

O interessante é que frequentemente entramos nessas três posturas, as vezes ao mesmo tempo. As vezes dependendo da pessoa com quem nos relacionamos e muitas vezes com nós mesmos. Ex: nos acusamos de incapazes (perseguidor), comecamos a acreditar nisso (vítima) e para não encarar o problema mais a fundo, encontrando justificativas (salvador). Isso apenas gera um ciclo vicioso de culpa.

Outro exemplo bem conhecido: Queria ajudar ele (salvador), mas ele se voltou contra mim (vítima) e tive que me defender (perseguidor). Isso pode ser chamado de "ciclo de tirania".

Todas essas 3 posições vão acabar em culpa, ou seja, vitimização. E dai, pra que serve a culpa mesmo? Pra nada. Nossa história é calcada em culpa, mas qual a função mesmo dela? nos fazer arrepender? esse é o melhor aprendizado? Eu acho que é importante diferenciar: assumir erros e responsabilidades nao deve implicar em assumir culpa, arrependimento. A culpa é um sentimento castrador demais, gera vitimização e atrapalha justamente encarar responsabilidades.

CAUSAS

Se formos analisando e coando tudo isso, chegamos a conclusão de que a causa de tudo é negar ou não expressar nossos próprios sentimentos ou os dos outros e/ou não assumir responsabilidades e erros. Essa repressão gera culpa e vergonha, e, como qualquer repressão, acarreta em doenças emocionais ou em explosões repentinas, pois o cérebro sempre vai precisar - e encontrar uma forma - de "válvula de escape".

..

Pois é.. tanto estudo pra descobrir que o MENUDO é que tava certo.. Não se Reprima! :P

sábado, 11 de julho de 2009

Pobre Michael


A morte de Michael acabou que me trouxe reflexões importantes, porque trouxe peças do quebra-cabeças que faltavam pra entender seu drama. Ele estava mal, viciado em drogas há muitos anos. Foi confirmado, oficialmente, que ele estava dependente e consumia diariamente: Demerol, Vistaril, Dilaudid, xanax, Zoloft, Ritalina, prozac e Prilosec.

Quem tem problemas internos nunca conseguirá resolver eles com paliativos externos. Outro dia vi uma matéria sobre psicólogos estudando pessoas que teimam que querem fazer cirurgia plástica. E elas seguem sistematicamente o seguinte comportamento: dizem que só serao verdadeiramente confortaveis com sua aparência se mudarem o nariz.. mas dai depois que operam,continuam insatisfeitas, dessa vez querem mudar o queixo.. e depois a boca, e por aí vai, achando que será feliz se mudar tudo que "a incomoda". Da mesma forma buscamos sempre pretextos, to tipo "se eu ganhasse na Sena eu seria feliz".. Michael é a prova disso: um cara que tinha tudo na vida: boa fé, carisma, talento, muitissimo dinheiro e até muitas, muitas pessoas que fariam tudo por ele. Isso não o impediu de ter sérios problemas, e de desenvolver medo da vida. Tentou o dinheiro pra resolver "problemas" como a cor da sua pele e o tipo do seu cabelo, quando o problema tava lá dentro.. Michael era um menino medroso que nao queria encarar a vida, que se sentia, apesar de tudo, inapropriado a ela (como já vi ele confessar em entrevista).. e buscava fuga em quimicas, que obviamente o fizeram um viciado.

E por que ninguem o ajudou, se ele era tão amado? Simplesmente porque não adianta nem toda ajuda externa do mundo se a pessoa nao quer, verdadeiramente, mudar. Se a pessoa não consegue essa consciência por si própria, de dentro pra fora. E Michael não queria. Talvez tenha achado que quem tem tanto dinheiro nao precisa de psicólogo. Talvez ele tivesse medo até de perder o medo.. Ou de admitir pra si mesmo/pra alguem que precisava de ajuda psicológica.

Conversando com pessoas que já foram aos Narcóticos Anônimos (uma terapia "irmã"da dos Alcólicos Anônimos, de tratamento pra quem está viciado em qualquer droga) soube que realmente a fase mais dificil para tratar um vicio é a pessoa reconhecer que é um vicio, porque é normal que a pessoa só perceba/assuma quando já teve perdas consideráveis na sua vida. Como eles dizem, a maioria dos viciados nem "sabe" que é viciado.


O que é um vicio? Como saber se somos adictos?


A Organização Mundial da Saúde considera 7 critérios para definir um diagnóstico de dependência química. Se a pessoa se encaixa em pelo menos 3 desses itens que seguem abaixo, o diagnóstico é de dependência. Lembrando que em caso negativo, o uso abusivo pode ser desenvolvido e acarretar numa possível dependência. Lembrando, também, que dependência é uma doença incurável, deve ser tratada clinicamente. O primeiro passo do N.A. é reconhecer a impotência diante da droga e pedir ajuda.
Seguem os itens:

(1) tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:

(a) uma necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para adquirir a intoxicação ou efeito desejado
(b) acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade de substância

(2) abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
(a) síndrome de abstinência da substância (desconforto)
(b) a mesma substância (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumida para aliviar ou evitar sintomas de abstinência

(3) a substância é freqüentemente consumida em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido.

(4) existe um desejo persistente ou esforços mal-sucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso da substância

(5) muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção da substância (por ex., consultas a múltiplos médicos ou fazer longas viagens de automóvel), na utilização da substância (por ex., ficar horas preparando o ritual de fumar maconha) ou na recuperação de seus efeitos

(6) importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso da substância

(7) o uso da substância continua, apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pela substância (por ex., uso atual de cocaína, embora o indivíduo reconheça que sua depressão é induzida por ela, ou consumo continuado de bebidas alcoólicas, embora o indivíduo reconheça que uma úlcera piorou pelo consumo do álcool).

Resumindo: sempre que a utilização contínua de uma substãncia comece a prejudicar outros setores da vida da pessoa.
O fato da pré-disposição ser uma "doença sem cura" quer dizer que nao importa quanto tempo a pessoa passe "limpa", a dependência pode voltar a qualquer momento e fazer o mesmo estrago.

e pra terminar esse assunto hardcore, um video perfeito pra se despedir do assunto "Michael". Uma pena que na vida ocorram tantos desperdícios por causa de medos e vicios..

(obs: pra quem tem fones vale a pena ver em High Quality: logo depois de apertar o play, clica lá embaixo HQ)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Complexo de perfeição


Um mal do nosso mundo atual, muito preocupante e muito pouco discutido, é o que eu chamo de "complexo de perfeição", e acomete muito mais as mulheres, justamente por consequência de uma sociedade atavicamente machista.
Fico admirado de, hoje em dia, conhecer cada vez mais mulheres talentosas, criativas, inteligentes e lindas que se acham muito pouco, e em casos de menor auto-estima, chegam a ficar congeladas numa redoma de medo imenso.. O medo de admitir suas características (tachadas como "imperfeições") mais que naturais. O machismo vem, ao longo dos tempos, acumulando cobranças em relação às mulheres, de uma forma surreal e desonesta. E, infelizmente, uma mentira contada depois de muitas décadas (nesse caso, séculos!) começa a ser internalizada como uma "verdade" e, nesse caso, como uma doença social. A crença de que se deve ser "perfeita" (conceito idealizado e inatingível, portanto uma receita perfeita para a eterna insatisfação) gera uma verdadeira fobia feminina  - já que esse mesmo machismo por outro lado é conivente com os erros masculinos - e esta fobia tambem não pode ser expressa.. pois revelaria mais uma "imperfeição"!

Some-se a isso a cultura feminina de competiçao acirrada - algo tambem incentivado por uma mentalidade machista - e aí está: o ambiente perfeito para que surja o complexo de perfeição.
A mulher acredita que PRECISA, alem de ser independente, inteligente, competente, multi-tarefas, tolerante etc., tambem seguir um padrão estético impecável e muitas vezes irreal.. Vê-se o quanto cada vez é mais comum a combinacao, principalmente na mídia, de anorexia e implantes de silicone, por exemplo.
Observem: quase toda mulher, de uma forma ou de outra, em diferentes graus, cai nessa cilada de acreditar na cobrança que lhe é imposta pelo mundo como condição para ser aceita.

Assim, seguindo o impulso de se esconder, as mulheres com complexo de perfeição podem até chegar ao ponto de não permitir que qualquer outra pessoa se aproxime perto o suficiente para enxergar qualquer coisa que elas acreditam ser uma imperfeição, e para isso desenvolvem máscaras sociais que podem ser muito grossas, impossibilitando relações mais profundas (com amigos, namorados, familiares e até maridos) e se sentem sozinhas, deslocadas e congelam na sua evolução pessoal e no auto-conhecimento, no contato com sua propria força vital intuitiva. É interessante observar que a maior parte dessas mulheres têm muitos admiradores e seguidores, pois passam uma imagem impecável, mas elas mesmo sabem que essa admiração é superficial: afinal é pela sua "máscara" e não por ela. Um grande exemplo disso é Marilyn Monroe, que foi vítima do seu próprio personagem artístico, que inevitavelmente se tornou uma máscara para lidar com o mundo, máscara essa que a isolou, como uma armadilha, e a fez muito mal, como se sabe. Ironicamente, por serem mulheres que vendem uma imagem de extrovertidas, elegantes, cultas, politizadas etc., têm uma imagem social muito positiva, e por isso é muito mais dificil que alguem desconfie do seu distúrbio, o que é mais um fator desfavorável para seu tratamento.

Então se faz o ciclo vicioso: Apesar de desejarem intensamente se conectar com os outros, as mulheres com complexo de perfeição têm medo da intimidade. Intimidade requer vulnerabilidade e abertura honesta. Apesar de ter uma índole honesta, íntegra e confiavel, em seu íntimo ela acredita que é incompleta, incompetente, cheia de defeitos, e não consegue se expor. Todos nós queremos ser incondicionalmente aceitos, mas quando não conseguimos nos aceitar a nós mesmos, é dificil acreditar que alguém realmente possa se envolver conosco.. e começamos a nos ver como farsas. Pensar que precisamos esconder nossos "defeitos" faz com que seja prioritário manter distância. Enquanto a mulher com complexo de perfeição tiver que manter seus segredos e negar sua verdade, a intimidade é inatingível. Portanto qualquer pessoa com mais visão que poderia ajuda-la a enxergar melhor seu quadro é afastada, obviamente, e algumas vezes, em casos extremos, transformada em uma espécie de monstro por ela. Isolada, e nutrindo revolta pelo quadro opressor, a mulher que nao enxerga esse processo claramente acaba se vitimizando, e a vitimização é uma forma de assegurar ainda mais alienação, não somente dos outros, mas principalmente de si mesma.

Esse quadro é um problema social cruel, mas atitudes agressivas ou radicais só podem gerar mais desentendimento e falta de sintonia. O caminho é uma compreensão, uma conscientização e uma crença maior, tanto das mulheres quanto dos homens, no poder feminino, principalmente o da sensibilidade e da intuição. Acredito totalmente que se a mulher se empodera, percebe que pode virar o jogo, e ao invés de tentar se enquadrar na expectativa machista, pode suprir uma carência do mundo de direção, afinal não ha nada melhor do que a visão feminina, sensível, equilibrada e livre de "impulsos testosterônicos" para dar uma luz para os homens... Para começar a acontecer uma mudança, é necessária uma mudança coletiva de consciência, e toda mudança coletiva começa com focos de discussão, para a questao deixar de ser tabu e que as pessoas entendam que é o caminho é passar pra frente essas idéias. Então que tal escrever, espalhar, discutir, destrinchar, denunciar o complexo de perfeição? Posicione-se a respeito do machismo, da "cultura photoshop", da cultura da comparação/competição, porque mania de perfeição só serve como uma grande pedra no caminho da felicidade feminina, e portanto, do mundo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Erros: por que tê-los?



O que é um "erro"? Antes que a gente discuta a relatividade do termo, vamos considerar que erro é uma ação que a própria pessoa julga, cedo ou tarde, como uma atitude que traz incovenientes, é destrutiva, prejudicial, leva a arrependimento.

Sendo assim, as vezes nos perguntamos: porque algumas pessoas precisam sofrer ou demoram tanto pra aprender algo, se outras que passaram por aquele aprendizado antes podem dar (e dão!)dicas de aprender o mesmo sem sofrer tanto?
Pensando bem, esse questionamento é ingênuo; as coisas não são tão simples assim. Imagina que chato seria bastasse ler um manual de instrucoes pra viver perfeitamente, sem errar? Imagina como as pessoas pareceriam zumbis se seguissem uma mesma fórmula pra fazer e aprender as coisas? (um parêntesis[redundante]: alias, essa é minha bronca principal em relacao ao ensino em geral: em vez de valorizar a criatividade individual, força o aluno a decorar como agir, padronizadamente, perante aos problemas, mas isso aí já é outra longa questão)

Errar é muito sadio. Primeiro, porque é como aquela história de "ver pra crer"... Livros ou conselhos podem até ajudar em alguns casos, mas o que ensina é a vivência. A vivência individual. Cada um deve desenvolver suas próprias formas de resolver seus próprios problemas. Por outro lado, querer impor uma experiencia pessoal a outra pessoa alegando "se importar com ela" é de uma ditadura até cruel, pois alem de ter aí embutida uma pretensão de que se pode saber o melhor pra outra pessoa, existe falta de respeito com o processo natural de aprendizagem individual do outro. Faça sua parte, colabore com sua visão e experiencia, mostrando que se importa com o outro, mas nao o critique em seu aprendizado. Deixe o outro errar! A voz da experiencia, por mais experiente que seja, precisa respeitar esse direito.

Mas daí vem uma segunda questão: Por que algumas pessoas erram e não aprendem, continuam errando no mesmo ponto e sofrendo repetidamente? isso eu já não sei ao certo, deve envolver muitas coisas dependendo do contexto: falta de visão, idealismo cego, orgulho, falta de humildade, fuga... Mas prefiro pensar que assim como cada um tem direito a aprender da sua propria forma, cada um tem direito de demorar o quanto deva pra aprender com o sofrimento sem ser censurado/criticado por isso.

sábado, 25 de outubro de 2008

DJ - uma profissao com cada vez mais responsabilidade..


As vezes encontro uns colegas de profissão que reclamam da inflação de DJs de hoje em dia. Dizem que em cada esquina tem um DJ, que filho de famoso ou modelo nao sabe o que ser e "vira" DJ, que o publico compra charlatões que tem um bom marketing etc. E eu sempre chamo atenção pro lado bom disso. Digo que com a quantidade de "paraquedistas" na area, finalmente o publico vai aprendendo a diferenciar.. Digo que quem é ruim, pode enganar alguns por um tempo, mas nao se sustenta. Sempre me alivia ver que DJs que nao gostam realmente de musica acabam nao se sustentando. Mas vim falar de outra historia, pra exemplificar a importancia de ser DJ hoje em dia:

Semana passada fui no meu banco, conhecer enfim o gerente (que está há anos lá), que tem cerca de 45 anos. No meio do papo, eu comentei que viajava muito e ele perguntou o que eu fazia, e eu disse que era DJ.
Entao ele falou “Po, então me diz uma coisa.. Essa semana mesmo estava conversando com um amigo meu, e estavamos nos perguntando por que até os anos 80 as musicas eram boas, tinham uma certa qualidade, e hoje em dia é tudo porcaria, descartável. É porque a geração de hoje é diferente, e eles gostam mesmo de lixo?”

Tentei ser resumido. Mas, como profissional da musica, tinha que dar uma resposta que esclarecesse bem. Então disse mais ou menos assim: “Não, eles nao gostam de lixo, eles são levados a consumir. Mas isso acontece por duas coisas: primeiro, nos anos 80 o marketing se sobrepos à música, à arte, portanto a prioridade passou a ser vender, e não oferecer música de qualidade. Isso forma um ciclo destrutivo: As gravadoras viraram indústria, e pararam de arriscar em coisas originais: só lançam o que elas tem certeza de que vai vender. Como eles são marketeiros, publicitarios, eles nao entendem de música. Por isso que esse esquema tá todo desmoronando agora. O outro motivo é que temos mais de 15 anos de jabá instaurado no Brasil. Ou seja: tudo que o publico ouve em radio e tv teve grana por fora pra ser veiculado. Isso reforça ainda mais o ciclo do primeiro motivo, entende?”
Ele pareceu entender o sentido da coisa. Ná próxima vou tentar ser mais resumido.. rsss.. é dificil, num assunto como esse.

O consumidor nem se toca desse processo de manipulação, muita gente ainda acredita que as radios e TVs selecionam o que há de mais interessante para mostrar ao publico, e não é verdade. As pessoas também não sabem que é uma máfia, envolvida com política até o pescoço, essa coisa de concessão de transissão de radio e TV.

E é por isso que o DJ será uma figura cada vez mais importante, porque só o DJ pode, dando a volta nesse sistema pobre e destrutivo que vê a musica como caça níqueis, pesquisar, selecionar o que ele, e o amor à musica dele, acham que é interessante, adequado, valoroso e servir de ponte entre a musica e o público. O problema tambem é os DJs terem essa consciência e/ ou conseguirem a liberdade de fazer um trabalho menos comercial. A maioria deles precisa trabalhar pra esse sistema, e acaba colaborando com o ciclo – de padronização cultural – ao inves de possibilitar a diversidade e liberdade musical.


veja tambem um texto meu que sobre o que é um bom DJ aqui.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

corpo, alma


Nossa cultura ve algumas coisas de forma muito curiosa. Sempre questionei a nossa relação psicológica com o nosso corpo. A gente constuma pensar no corpo como um “outro”, como algo meio independente de nós, como se ele não fosse nós mesmos, e sim um parceiro com quem temos uma relação de permuta: temos que tratar bem dele pra ele dar o que queremos. Em casos mais graves (e infelizmente mais comuns) o tratamos como escravos: damos o mínimo do que realmente importa a ele e exigimos que ele aparente o melhor possivel, porque não estamos realmente preocupados com ele, e sim com a imagem dele nos favorecendo.

Talvez haja uma supervalorização da “alma”, que é uma certa ‘entidade’ que nunca ninguem provou realmente que existe e a vemos independente do corpo. E na verdade o corpo vem primeiro, ele sim possibilita a alma estar sadia. Se nos preocupamos com o preparo e a sanidade do nosso cérebro, porque as vezes somos tão relapsos com nosso corpo? Muitas vezes ainda o sobrecarregamos: colocamos quimicas pra fazer ele agir contra sua vontade, contra seu ritmo e reações naturais, e literalmente nos agredimos sem a menor consciência. As pessoas tinham que ter o habito de amar mais seus corpos. Tirar um tempo do dia todo dia para senti-lo, observa-lo, acaricia-lo, ama-lo.

O corpo não é uma escultura, não é uma imagem pra atrair e impressionar. Ele é nosso veradeiro “templo”, ele é sagrado, ele é inerente e indispensável a nossa alma, ele nos protege, ele nos dá liberdade, nos apóia, nos dá sensações, quarda nossas recordações e histórias de vida. Recordo uma história em que a Fernanda Montenegro reagiu a uma critica sutil as suas rugas dizendo “tá louca que eu vou tirar elas? Você não sabe quanto tempo de vivencia eu precisei pra adquiri-las!”.

Nosso corpo nos dá dimensão, volume, nos liga a terra, nos faz sentir que existimos. Acho que pode ser destrutivo pensar no corpo como um recipente que abandonamos pra voar para um plano melhor, ou supervalorizar a “alma” (o que quer que ela seja) reduzindo o corpo a um veículo provisório. Talvez esse seja um dos motivos que nos faz tão relapsos com nosso corpo, uma herança de séculos de crenças que o diminuem. Além do mais, se voltar pro próprio corpo é um exercicio de auto-conhecimento. Aceita-lo em sua diversidade, sem impor a ele que siga um padrão pré-estipulado-por-sabe-se-lá-quem é preservá-lo de uma tirania, se recusando a banaliza-lo. É principalmente se conectar com sua verdadeira essência, algo raro nos dias de hoje.

Sem o corpo, não há alma. Nossa energia pode até transmutar em outras coisas, mas nossa consciência, desta forma que temos hoje, só vai existir mesmo nesse nosso injustiçado corpo. Acho que o ser humano só ganharia supervalorizando menos a “alma” e valorizando mais seu querido corpo.

domingo, 19 de outubro de 2008

VAMPIROS DE IMAGENS


As vezes acho que a festejada "cultura do individualismo e da liberdade" é uma desculpa pra ainda mais alienação: é como houvesse um plano para, através da 'maquina do sistema', primeiro se tirar a cultura, a intuição e até a liberdade das pessoas e faze-las de ovelhas que acreditam que tem livre arbítrio, qualidade de vida e um rico leque de opções de vida. Então, aproveitando que elas estão sem esses privilégios, depois a fazem acreditar que os valores estão baseados em consumo, e além de venderem supérfluos insalubres, ainda vendem "antídotos", num processo parasitário. Diante desse quadro, sobram carcaças vazias que vivem pra trabalhar (e nao trabalham pra viver, o que seria o ideal) e tudo entra em um ciclo vicioso: diante dessa pressão pela produção a todo custo, não têm sequer tempo para buscar alternativas ao pré-moldado que lhes é empurrado. Frustradas, as pessoas tentam preencher esse vazio de forma errada, paliativa. E adivinha quem tambem dá esse paliativo de forma fácil e tambem pré-moldada? Não precisa ser visionário pra sacar que é a mídia. Tanto a industria de "entretenimento" - a espetacularizacão de tragédias, de produção de "ícones-ilusões-de-ótica" - quanto a midia que está mais em "plano real" - a publicidade. O negócio é criar uma imagem agregada a um status social e vende-la (assim como é feito com as mercadorias de consumo) como indispensável.

Ok, há séculos a historia da humanidade tem se baseado em imagem. Já na idade média a aristocracia vivia de uma imagem, uma máscara, e era seguida pela burguesia, que tambem tinha como um dos valores prioritários cultuar e perseguir essa imagem aristocrática e ostentar, glamourizar e mascarar sua vida. Assim se pode ver na obra de vários artistas que satirizavam a hipocrisia social como Moliere (As Eruditas), Balzac (especialmente "Comédia Humana"), Oscar Wilde (Retrato de Dorian Grey). Como evoluimos, obviamente nossas doenças evoluem junto. Hoje a mídia não só vende o culto de status ou objetos, mas pior: cria e vende, com toda a parafernalia tecnologica de que dispõe, a imagem desses objetos, que obviamente não condizem com a realidade. Tudo é espetacularizado, glamourizado, vendido como "modelo". Desde a rotina de "big brothers" até a vida de jogadores de futebol, de infelizes assassinos a atrizes e apresentadoras de televisão cujo unico curriculo é terem dado pra homens famosos..

Assim se faz uma relação de fetichismo popular por imagens idealizadas, junto com uma frustração, a de nunca alcançar estas imagens. É uma relação nada sadia: ao mesmo tempo há a admiração / a inveja; a super-valorização do outro / a desvalorizacao do self. Isso dificulta ainda mais as pessoas de entrarem em contato com sua grande verdade - que sempre está dentro delas mesmas. Buscam, desesperadas, representantes de dimensões de humanidade que o homem comum já não reconhece - o que dirá encontra - em si mesmo.

Predomina a imagem sobre a personalidade, a aparência sobre a "essência", e isso é uma das maiores características da cultura urbana contemporânea. Como o mercado é totalmente mancomunado com os meios de comunicação de massa, a mídia produz os sujeitos de que o mercado necessita, prontos para responder a seus apelos de consumo, numa simbiose de dois monstros parasitas. Por outro lado, o consumidor vive para valores fúteis que o fizeram crer como essenciais, e se torna tambem um vampiro, pois por mais que consuma o "remédio" dado, sempre estará sedento, sem saber exatamente de quê. Só que ele é parasita de si mesmo, ou melhor, ele é um cúmplice do parasitismo sem perceber, pois se permite parasitar.

Até a espiritualização virou indústria, aliás, uma das que mais arrecada dinheiro. Pois é óbvio que as pessoas, diante desse vazio, percebem que mesmo consumindo, a aflição do esvaziamento de essência e sentido continua. E vão buscar um lenitivo mais forte, a suposta "espiritualidade" que supostamente deveria se basear na riqueza da troca com o mundo e a busca de auto-conhecimento e hoje vem tambem em forma de mercadoria, pré moldada, de fácil consumo. Claro que é preciso ter "fé" em qualquer coisa que pareça uma bóia de salvação para desconcentrarmos desta falta de sentido, esse empobrecimento e massificação dos nossos valores essenciais.

O resultado é, como tudo em uma sociedade imediatista, um apodrecimento, um esgotamento das bases, e um inevitável desmoronamento da estrutura atual, que já está em plena decadência. Talvez se não fosse por esse imediatismo, todos iriam enxergar que todo mundo acaba perdendo com um empobrecimento geral de uma sociedade que só consegue "enriquecer" às custas destas vidas expropriadas, e baseadas em ilusões. É ilusão pra te vender coisas, é ilusão pra te fazer alimentar mal, é ilusão pra te vender remédios e soluções milagrosas pra todo lado. Há parasitismo em mais lugares do que se parece, o que deixa todos debilitados. E é dificil enxergar esse empobrecimento justamente porque faz parte do jogo o sistema fechar os olhos das pessoas para isso, fazendo-as acreditar que, abarrotadas de mercadorias, gozam de uma riqueza excepcional, o que as deixa ainda mais perplexas.

Saídas práticas e positivas? Aprender a identificar os "parasitas", compreender toda essa "máquina descontrolada" e passar adiante a compreensão, não pregando, mas informando, proporcionando pensamento, discussão, reflexão. Talvez sua missão no mundo inclua isso, quem sabe? ;)


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Dedicado à minha amada e iluminada Aleta.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

machismo vs feminismo

barbie-mulher-maravilha: desde cedo as meninas ja sao subliminarmente programadas para o modelo de perfeicao feminina, e claro que de um ponto de vista masculino.

A gente nao se dá conta, mas há uma guerra dos sexos, de pano de fundo, na nossa cultura. E sempre haverá, enquanto a maior parte nao enxergar e desvendar as desigualdades envolvendo os gêneros. De um lado, uma sociedade que ainda tem uma herança machista, que oprime e pressiona a mulher de uma forma principalmente tácita. Do outro, mulheres que não se conformam com essa desigualdade e ficam num dificil lugar onde se dedicam a chamar atenção para os desequilibrios entre gêneros e machismo do mundo. "Dificil", porque é um ingrato posicionamento ideológico: se por um lado se tem que puxar a balanca pro centro, se faz uma força oposta muito grande. Por isso as pessoas confundem esse conceito do feminismo, que nao é o contrario do machismo, e sim uma tentativa de proteção contra o machismo. E tambem por isso que é tão comum defensoras da igualdade feminina cometerem o feminazismo, o radicalismo geralmente contendo rancor e raiva, que é igualmente despropositado e destrutivo. Porque só alimenta essa "guerra de sexos". E lutar pela paz é um contrasenso, e um pecado recorrente de muitos militantes: a linha que divide militância e radicalismo é muito tênue.

Vi um filme em Barcelona, numa exposicao dedicada a Agência Magnum, chamado Aka Ana, filmado em 2006 em Tóquio, do diretor francês Antoine D'Agata. O filme mostra depoimentos, dos mais profundos, de prostitutas japonesas, e uma fotografia que te leva ao mundo mais íntimo delas. Saí da sala de projeção estarrecido. Foi uma experiência muito forte, porque nunca vi um filme que falasse de uma forma tão crua e profunda da natureza feminina, da fragilidade que envolve a sua condição, da questão de lidar com a sexualização do mundo regido pela visão masculina, das 'leis' que a vida impõe à mulher, ainda mais naquele contexto. Isso tudo se intensificou ainda mais porque estava acompanhado de uma amiga que ja teve uma experiencia de estupro. Realmente sai branco, com olhar perdido e a consciência de que provavelmente nenhum homem vai um dia saber exatamente o que é, realmente, a condição feminina, os conflitos, a responsabilidade de ser tanta coisa que lhe é projetada, a pressão da sociedade em tantos aspectos, a subjetividade e sobretudo o milagre da maternidade. E isso me faz compreender mais as mulheres que piram com isso, e as vezes passam dos limites. Nao é pra menos.

E por este equilibrio homem-mulher ser uma condição tao delicada, e por serem necessários tanta evolução e altruismo da raça humana para lidar de forma equilibrada a respeito, não sou otimista. Como o mundo está cada vez mais individualista, as pessoas cada vez mais fechadas e incapazes de se relacionar, compreender e tolerar as diferenças, do jeito que as coisas estão cada vez mais imediatistas e capitalistas (em uma sociedade onde todos querem comprar as soluções, e nao trabalhar por elas) eu cada vez mais acredito em uma antiga profecia minha:
Como sou fã de ficção cientifica e de previsões fantásticas, acho que nesse seculo nós ainda vamos presenciar um conflito social (e sexual) gerado pela tecnologia. Se imaginarmos que não ha limites tecnologicos, um dia desses os japoneses vao lancar uma sofisticada mulher artificial para fins sexuais (como ha em blade runner, meu filme preferido). E eu acho que os valores dos centros urbanos do mundo tao caminhando pra um lado tão vazio e consumista que isso vai ter um mercado grande entre infelizes homens solitários, acomodados, imediatistas, sem vivencia ou simplesmente machistas e misoginos, em um mundo cada vez mais regido por imagem e menos por valores essenciais. E certamente vai gerar uma (in)revolução de costumes. Se pararmos pra imaginar as possibilidades, nao é nada animador. Mais um exemplo de que a tecnologia, se usada somente pra suprir o comodismo e imediatismo humano, pode ser uma enorme inimiga.

Será que o ser humano vai acordar a tempo para resgatar (Desde ja) a vida de verdade? Resgatar o valor da complexidade tão bela das relações, que são essenciais pra nossa evolução como humanos?
Veremos nas proximas décadas, mas correndo o risco de parecer feminista (ou machista, pra alguns pontos de vista), sinceramente eu acredito que a mulher tem até mais poder pra mudar esse destino - espalhando sua compreensão e sensibilidade, se negando a ser o que o mundo machista espera dela para ser ela mesma e botando pra fora o seu poder e sua inteligência emocional, que são tao reprimidos, há tantos seculos, que precisam de uma sacudida pra acordar realmente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

london




Passagem rapida por Londres pra encontrar meu publisher, que lancou meu primeiro CD (Dr.K - SwingSambaLounge), que fiz ha 5 anos. Colocamos papos em dia, atualizamos contratos e fizemos planos pra tour do ano que vem. Fiz uma sessao de fotos pra imprensa pro Dr.K no Tate museum. Adorei a 'equipe' da Curve Music (Lizi, brasileira, e o Greg ruivao), e o fotografo brasileiro Arthur. Deu tempo de passar uma tarde passeando pelo Soho vendo lojas de discos e camisetas bacanas. Terca conheci finalmente o Guanabara, o famoso Club Brasileiro. Um clima bom, cheio de brasileiros e, claro, ingleses que querem encontrar gente que tem dendê e samba no pé. Hehe.

Londres eh a capital mundial do "sorry". Incontaveis os sorrys que escutei nesses 2 dias. Concluo que seja, por isso, o lugar mais civilizado do mundo.
Londres ta mais cara que nunca. Dois dias apenas, e so pra locomocao dentro da cidade (metro, onibus e trem pro aeroporto) foram 28 libras, o equivalente a uns 85 reais... Tem que ter cacife.

Momentos mais marcantes:

- Ver pela primeira vez o meu primeiro cd em formato fisico, e com selo prateado holografico e tudo. Ele foi prensado na Ucrania e em breve sera na Inglaterra.
- Ser clicado por uma rolleiflex 1948
- Ver o trabalho de artistas brasileiros cobrindo as paredes externas do Tate museum
- Receber o carinho e respeito do pessoal da Curve Music. Sou o unico DJ/Produtor do label, e recebi elogios do album do tipo "classico desde que nasceu", "parece uma viagem de aviao, comeca ja decolando, te deixa descontraido e acaba chapante", "quase abriu um buraco no cd, porque nao saia do meu cd player", "me faz dancar em qualquer lugar sempre que eu o ouco".

sábado, 2 de agosto de 2008

bristol 2


Bristol parece uma Londres mais relaxada, tranquila, pessoal muito amigavel, tou curtindo bastante.  Ontem toquei na Festa Brazilian Beatz (foto acima), 400 pessoas amarradonas pra ouvir so musica brasileira a noite toda, e a maior parte de ingleses, o que eu prefiro, pois voce pode entrar mais num conceito, mostrar coisas novas que eles se amarram. Fiz meu live e toquei muitas coisas de musica brasileira com influencia de ritmos eletronicos. Claro que o som do club era uma maravilha, os subgraves batendo bonito e fazendo todo mundo feliz.

Na pista 2, o lendario DJ Derek 75 com um corpinho de 74, tocava com com MDs um reggae de primeira qualidade, e ainda dava uma de MC com sotaque jamaicano! Amazing.

A noite foi perfeita. No dia seguinte eu encontrava as pessoas pela cidade e todos varios me disseram como se amarraram, adoraram a diversidade e a mistura de estilos com a musica brasileira.

Dormi na casa do Claudio, um dos socios da festa e professor de capoeira que coordenou a roda que se apresentou no meio da noite, e que foi excelente. Ele entrou pra imortalidade quando gravou a controversa introducao do ultimo disco do portishead. Foi contratado por 300 libras pra recitar um pequeno texto em portugues, e me falou que o texto nao tem nada de radicalismo religioso, apenas eh um texto falando de karma, dizendo que o que voce faz, sempre volta pra voce em triplo. Ainda disse que o pessoal do portishead ia gravar em espanhol, mas resolveram em portugues devido a popularidade do Brasil por aqui.
Foi legal amanhecer em Totterdown, o bairro que eu ja conhecia apenas de ver em um clipe do portishead. 

Hoje toquei pre centenas de pessoas num festival que foi das 11 as 19h, com o Kacey, entre as bandas. A que eu mais gostei foi a banda de swing-folk-jazz-balcanica Sheelanagig, que mostrou que tem muito ingles com swing, num show divertidissimo e performatico. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

bristol


Cheguei na terra do drum'n'bass e do reggae. Cidade do Banksy! Bristol me parece bem legal. Olhem a estacao ferroviaria, que graca.
Meu camarada Kacey, um ingles descendente de iranianos que adora o Brasil, me encontrou no meio da rua depois da gente desencontrar na estacao (segunda vez que acontece isso na viagem, muita coincidencia) e fomos tocar ontem uma festa de caridade num clubzinho local. Quando entrei, um dj e dubstep tocando e os subgraves bombando. Subgrave eh que nem uma droga, fez efeito na hora e eu gritei BRISTOOOOOL!!!! :) Dancei muito, logo depois tocamos e depois, drum'n'bass. Db eu sempre gostei, mas eh aquela coisa.. entrou numa formula ha um tempao e todos os djs que ouco me soam cansativos. O que eh mais legal eh o MC.. ontem havia dois excelentes.
Os ingleses sao aquela coisa: Otimos pra festa, bem dispostos. Mas dai encontrar algum que dance bem eh outra historia.. Kacey me falou que as mulheres adoram as festas brasileiras que ele faz, mas os homens ficam intimidados porque nao sabem dancar aquele tipo de musica.

Hoje vou tocar com Kacey de novo, e na pista 2, o lendario DJ DEREK, esse do video ai acima. Observem a figura lendaria de um DJ de 75 anos venerado pela garotada local. Bristol, a Jamaica inglesa, eh demais.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

conto infantil


Minha filha uma vez me confessou que morre de medo da professora perguntar algo que ela nao saiba responder. Disse que quando isso acontece, eh "uma das piores sensacoes da vida dela", e ela fica sem acao, os olhos enchem de lagrimas. Expliquei que ela tem direito de errar, que ninguem nasce sabendo, que nao eh vergonha alguma nao saber de algo. Ate apelei pro argumento de que ela eh crianca, que crianca nao precisa se preocupar com nada, isso de levar tudo muito a serio eh coisa de adulto. Claro que nao adiantou, ela alegou que "eh dificil mudar, certas coisas nunca mudam"

Entao fiz um continho infantil pra ela.. com muito amor. Transcrevo aqui pra exprimir minhas saudades.

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Era uma vez duas irmãs gêmeas: Lelê e Lili. Elas eram iguais em tudo, menos em uma coisa: A Lelê levava susto com tudo, e a Lili nunca se assustava. Ninguém sabia porque que as irmãs eram tão diferentes nisso. Quando alguem dava susto na Lili, ela ria, e não tinha medo. Já a Lelê ficava com muito medo de levar qualquer susto, o que deixava ela mais nervosa ainda. Qualquer relampago, bombinha de são joão, porta batendo ou até sombra a assustava, e toda hora tinha um novo susto, por isso Lelê chorava todo dia, dormia mal, e passava o dia cansada. Tambem nao queria fazer coisas diferentes, porque tinha medo de coisas novas: so queria ver televisao, porque quando assistia programas e desenhos era a unica hora que ela se esquecia do medo dos sustos. Na hora de dormir, Lelê nao deixava a irmã apagar a luz, porque no escuro, já que ela nao podia enxergar, tinha ainda mais medo de levar sustos. E Lili não entendia o motivo da irmã ser tao ansiosa. Muitas vezes Lili ate se divertia assustando Lelê, e achava que dando mais sustos um dia ela se acostumaria, mas na verdade Lili nao sabia que pra Lelê era MUITO horrivel levar susto, era uma das piores sensações. Um dia ela notou que a Lelê estava cada vez mais seria, triste e nunca se divertia, e ficou preocupada com sua querida irmã. Finalmente Lili se colocou no lugar de Lelê e entendeu como ela via e sentia as coisas de uma forma assustadora. Assim, passou a ajuda-la, não dando mais sustos, para a irmã ficar mais calma. Mas Lelê continuava assustada por tudo. E não adiantava dizer para ela que não tem motivo pra levar susto, porque Lelê ja sentia susto antes mesmo de pensar.

Uma vez os seus pais sairam de noite e elas precisaram ficar sozinhas em casa. Lelê ficou apavorada, e Lili dizia, calmamente, que não tinha motivo para ter medo. Lelê dizia que podia aparecer um fantasma na casa, mas Lili dizia: não existe fantasma, e mesmo se existise, eu faria amizade com ele! Entao elas foram brincar, mas Lelê sempre com medo. Quando estavam brincando de boneca, um vento fez a cortina da janela balancar, Lelê viu a sombra da cortina e levou um grande susto. Quis sair correndo e sua irmã falou: "olha, não foi nada, foi so o vento, ta tudo bem" e trazia Lelê de volta para o quarto pela mao. Lelê ficava toda hora olhando a janela, com medo, e de repente a irmã teve uma ideia para ajuda-la: Falou: "Lelê, ja sei porque você leva tanto susto. E so porque você tem MEDO de levar susto!" Lelê respondeu "Como assim? Não entendi" E a irmã explicou melhor "Se você não tiver medo, ai nao toma susto! Vou te mostrar: Deita aqui e fecha os olhos que eu vou tentar te dar um susto." Lelê demorou muito pra fechar os olhos, porque tinha medo ate do susto dado pela propria irmã, mesmo ela avisando que ia dá-lo! Depois, acabou deixando, e Lili fazia "BUU!" e Lelê pulava de susto, mas depois ela comecou a relaxar, e depois de umas dez vezes ela viu que não tinha motivo pra ter medo e levar susto. Então quando Lili fazia "BUU!" ela comecou a rir. E depois de vinte vezes, ela ja achava a palavra "BUU!" tao boba que ria mais ainda, porque não achava mais assustador, na verdade "BUU!" era ate uma palavra engraçada, e não tinha motivo pra ter medo dela! Passou a achar a palavra "BUU!" a mais engraçada do mundo.

As irmãs cresceram, e quando ja eram adultas uma vez Leticia falou pra Lisbela (eram seus verdadeiros nomes): "Irmã, nunca te falei isso, mas aquele dia em que você ficou me ensinando a não ter susto foi um dos mais importantes da minha infancia. Depois daquele dia passei a ver as coisas de forma diferente. Ao inves de ter medo do susto, eu tinha é coragem, e quando eu cresci mais eu entendi que é igual com todos os problemas da vida: Eles aparecem toda hora, e se você tem medo deles, eles são horriveis e tiram seu sono. Mas se você sempre vai em frente sem medo dos problemas, quando eles aparecem você sofre menos, e sabe lidar com eles de uma forma muito mais calma. Nunca te agradeci por isso, e quero dizer o quanto foi importante pra mim, e te agradecer agora". E deu um abraco forte na irmã. Entao, abracadas, dessa vez foi Lili que chorou. Não de susto, mas de felicidade.

terça-feira, 29 de julho de 2008

idiossentropias

   (foto: eu mesmo, ontem)

idioss
- vem de idiossincrasias. Coisas do meu universo interno particular mesmo. Voces sabem, eh a primeira vez que tenho um blogue particular. E eh estranho, nao sei se tenho muito jeito pra coisa, afinal.
entropias - eh o caos, a desordem. Porque eh assim que eu escrevo mesmo. Se eu fosse bom, ja teria partido pra coisas mais profissionais.
Mas como eh um blogue informal, sem compromisso de ser muito politicamente correto, e so pros queridos amigos mais intimos (e nerds), tudo bem.. Se eu escrevo umas linhas mal tracadas  ta tudo em casa. Eh so comentar, argumentar, sugerir. Mais deixem o nome no comentario se nao sai "anonimo".. e dai nao rola uma troca, que eh o sentido da coisa mesmo.

abs

um passo a frente.. e vc nao esta mais no mesmo lugar

Depois de 5 dias em Milano, minha viagem entra numa nova fase, e me mostra cores que eu nao tinha experimentado antes. A experiencia de tocar num festival Latino foi muito valida, e o pessoal por aqui teve um reconhecimento do trabalho que me surpreendeu. Num nivel mais pessoal, tou conseguindo aproveitar mais a viagem, curtindo o agora. E percebo o quanto eu posso ser dedicado: No momento em que resolvo me dedicar integralmente a minha viagem, ela realmente comeca a me surpreender. Podem haver decepcoes isoladas, mas quando voce se da bem com a vida, nao tem tempo ruim. Pode haver ignorancia por toda a parte, mas quando voce tem carinho e tolerancia com tudo, encontra sempre onde ta a luz, e sintoniza com o que eh importante pra voce, atrai pessoas com mentalidades afins, mesmo que esteja num lugar onde nunca espera que isso aconteca. Ou seja: a vida nunca decepciona! Esse eh o meu maior aprendizado ate agora, e estou me sentindo completo por estar passando por essa vivencia. Vejo como eh importante pra mim me permitir a experiencias onde posso exercitar o meu improviso com a vida, que pra mim eh o tipo de vivencia que mais ensina no mundo.

Italia eh um pais unico, foi muito bom vir pra ca pra quebrar alguns preconceitos meus, inclusive. Ate entendi mais os preconeceitos dentro da propria italia, onde ha rivalidades entre as regioes. Hoje ganhei um cd de uma banda italiana chamada PARTO DELLE NUVOLE PESANTI, que tem o som baseado na musica tradicional do sul da Italia, como a tarantella. (Aqui da pra ouvir uma musica deles, num video satirizando o presidente italiano, que consegue ser mais patetico que o bush). A tendencia mundial eh que grupos valorizem cada vez mais suas raizes, tenho dito isso ha um tempo e cada vez mais acontecendo. Agora estou louco pra conhecer a Sicilia.

Percebo a cada dia que meu caminho eh buscar a essencia das raizes. Que a melhor forma de entender e lidar com a vida eh se livrar o maximo da futilidade de desejos glamourosos (que se analisados, so visam um status futil) e se aproximar da simplicidade das pessoas de 'verdade'(pra mim a maior parte delas certamente nao esta na minoria que eh muito privilegiada financeiramente) e dos ritmos, cores e lugares 'vira-latas', e eh por isso que gosto cada vez mais do Brasil.

Como a a troca, a vivencia, a interacao sao a coisas mais prioritarias pra mim, eu tendo a acreditar cada vez mais que o grande mal do mundo atual eh que ele eh regido por pessoas sem vivencia o suficiente, no sentido de interagir, trocar, se relacionar mesmo com os outros. Esta tomando o poder, a partir de agora, toda uma geracao que cresceu fechada nos seus apartamentos, seus carros e seus escritorios, e confesso que isso me preocupa..

quarta-feira, 23 de julho de 2008

u-hus

ilustracao:Shag

Sempre tive dificuldade de entender quem acha a vida chata, "dura" ou sem opções.
Pra mim a vida é uma sucessão de descobertas. A sensação de que, mesmo que eu viva 101 anos, não terei tempo pra conhecer, aprender, ver e curtir tudo que quero é uma das minhas maiores frustrações. Talvez a única realmente..

Estou sempre descobrindo estímulos... E, claro, sempre procurando formas de descobrir mais. Acho que assim se pode ter uma vida excitante sempre, afinal, o que não faltam são estímulos nesse mundão. Everywhere. Os problemas, então.. são os estímulos mais desafiadores! Não tenho medo deles.

E olha que eu podia reclamar, porque alem de ter como principal fonte de renda uma sub-profissão, é também uma sub-profissão dentro de um meio artístico.. Posso não ganhar dinheiro, mas me divirto um pouco! ;) Pelo menos é uma sub-profissão com uma ideologia clara. Pra mim a ideologia é fundamental, é o diferencial de ser um bom profissional.

Me ocorreu agora: viver é como discotecar. É uma função coletiva, social, mas em primeiro lugar você tem que tocar pra si mesmo, afinal se não tiver prazer naquilo, não vai passar esse prazer pras pessoas.
Se você tem um repertório pequeno, tudo vira rotina. Se você tem um repertório maior e rico, pode escolher exatamente o estimulo adequado pra cada momento.. se tiver o feeling, claro. Por isso é a junção do esforço de sempre conhecer novos estímulos (a chamada pesquisa de repertório e forma de mostrá-lo, que nunca acaba) com sempre sentir a atmosfera, como as coisas vão fluindo. E dançar conforme a musica também, claro. (O que seria de nos se tivéssemos os quadris rígidos? Vejo claramente que é terrível ser rígido, levar certas coisas muito a serio ou só se satisfazer se algo acontece naquele padrão pré-determinado pela nossa cabeça.)

Um DJ sabe também que uma pista não deve ser o tempo todo super-estimulante ou apelativa. Por exemplo: é fácil fazer uma criança gostar um doce atrás do outro (overdose de açucar que não nutre). Mais dificil é fazer ela apreciar o sabor mais sutil de uma fruta, de uma verdura.. rsrsrs.. Na pista é o mesmo: Existem as transições, existe o esfriamento, a troca de feelings, o relaxamento pra depois o estimulo volte com mais força e mais prazeroso. Toda boa história tem altos e baixos, e um DJ, como o maestro dessa "historia", deve saber conta-la com continuidade e coerência. E deve sobretudo saber o perigo da "facilidade dos U-hus", que não devem ser gratuitos, fáceis, se não as coisas vão ficando genéricas e mundanas demais. . Afinal, quem se vicia em hiper-estímulos deixa de reagir aos estímulos sutis.

terça-feira, 22 de julho de 2008

milano

                  (clique pra ver um pouco maior)
Meu live logo depois do show do Marcelo D2.. a noite promete!
Ainda tocar antes com Frank Sicardi (responsavel pelas compilacoes Sambass da Irma) e Emanuelle do projeto Nubraz

terça-feira, 15 de julho de 2008

venezia


Tirei segunda pra ir visitar Venezia, que fica a 180 km daqui. Acordei cedinho e, depois de um onibus e um trem, passei o dia inteiro andando na cidade das gondolas, das mascaras, das flores e da arte com vidro.

Fantastica. Quando se chega, ha o impacto, eh um cidade diferente de tudo, pois fica dentro da agua. Isso que " ta afundando" ou que "cheira mal" eh LENDA. Quem mora em Venezia quer um barquinho, um bote, uma gondola, e nao um carro. Simplesmente nao ha carros ou motos la. Sao consideradas 118 pequenas ilhas formando a cidade. Os turistas ficam enlouquecidos quando chegam la, mas surpreendentemente nao tava muito cheia. Havia movimento nas ruas principais, mas era so entrar pelas ruelas alternativas que se encontrava uma cidade tranquilissima, dava pra viajar nas peculiaridades locais.

A producao de vidro (a maioria vinda de Murano, do lado de Venezia) eh absurda. Tudo que voce imaginar, certamente encontrara uma versao vitrea pra comprar. Tudo. Muita arte experimental em vidro tambem. Lojas inteiras so de produtos de vidro. A contradicao eh que a a cidade vive de turismo, e certamente eh dificil convencer os turistas a levarem na mala elefantes e cavalos de vidro, grandes esferas, lustres gigantes. Tem que morar meio por perto, dai eles entregam. 

Uma das coisas que mais me impressionou foi o cemiterio. No meio do mar, relativamente afastado do limite da cidade, de repente vi um gigante retangulo, imponente. Esse eu coloquei foto no flickr, mas aqui vai uma bem melhor dele.

Fui a famosa praca San Marco, onde fora os pombos hippies interagindo com a turistada, tudo eh lindo (rsss). Viajei no Cafe Florian, certamente o mais charmoso da praca. Tirei fotos bem legais, mas de detalhes da cidade. As no estilo "turista" nao vale a pena postar, afinal qual o sentido de postar fotos feitas com camerazinha normal quando se pode ver muitas e muitas realmente decentes online?


segunda-feira, 14 de julho de 2008

cade a ideologia que estava aqui?



Pois eh, acreditem ou nao, parei num festival anti-racista na Italia, e agora sim, um sabado, tive a nocao maior de como funciona isso por aqui.

Dessa vez fui sozinho, tocar a segunda vez no festival. Cheguei umas 18h e ja estava cheio de gente, entao observei o dia inteiro as pessoas, tentando descobrir onde estava o lado mais ideologico e militante do festival. A camisa de um grupo de hip hop que tava passando o som tinha escrito "grupo tal odeia o racismo". Na minha frente, no refeitorio, um italiano sem camisa exibia uma tatuagem enorme no peito com a frase "life is pain" (sim, escrita assim, em ingles), e outro do meu lado com uma grande no antebraco, " love & hate". Outro grupo exibia uma camiseta com um logo com a frase "good night white pride", supostamente representando um racista sendo nocauteado. Sera que um pessoal que esta engajado dessa forma numa causa anti-racista ja nao deveria saber, a essa altura do campeonato, que odio contra odio so gera mais odio?

Mas no geral o clima era tranquilo, como o de comportadas ovelhas. Quase todo mundo com cerveja e cigarro na mao. Durante o dia o lugar parecia uma colonia de ferias sem muitas opcoes de entretenimento. Estranhamente o palco principal (e unico) ficou ate 21:30 (ainda dia) vazio. Depois, so duas bandas (ja que eles tem que parar 3h, pois mesmo sendo no meio do campo, leis sao leis..), a primeira foi de hip hop, daquele tipo tradicional de 20 anos atras, e logo depois uma banda de rock punk. Pra fechar a noite, um dj de drum'n'bass pesado.

Nas barracas, dezenas de imagens do Che Guevara, (sempre bom lembrar que foi um dos mais belicos assassinos do seculo XX, oportunamente transformado em martir do marketing do comunismo apos sua morte) vendendo adoidado em bones, camisetas e bandeiras. Eh evidente que idealismo de butique faz sucesso. Toda hora via camisas negras de bandas ancias: motorhead, iron maiden, sex pistols, metallica, a mais nova delas de 20 anos atras. Ja nao se fazem mais icones como antigamente? Frequentemente me vejo vivendo entre cliches datados ou distorcidos (como o caso do Che, por ex).  

Acho que enfim comeco a entender porque ouco tanto a frase "nasci no tempo errado" entre a garotada. Quem tem 18 anos hoje em dia deve se sentir vivendo em cima de valores clonados, e eh compreensivel que exista o desejo de ter vivido os originais, entao eh criada toda essa nostalgia deslocada. E entao fica mais compreensivel analisar como eh difcil fazer coisas de vanguarda hoje em dia. A absorcao eh dificil , ja que o pessoal ta tao condicionado a consumir pastiche de pastiche. 

Um parentesis: Lembro que quando cheguei em valencia e tinha um grupo enorme de adolescentes em frente a ferroviaria fantasiados de anos 80. A moda 80 realmente ta no apice agora, e voltou de forma caricata, tudo muito colorido, cheio de quadriculados, estampados de zebra, maquiagem carregada, rasgados e mullets. Aquilo foi muito divertido, porque me senti dentro de um comercial do gel new wave (lembram?). Fora o pessoal caracterizado de punk, parece que seguem uma rigoroso dress code definido ha no minimo 20 anos.

Ai lembro de um dos meus filmes preferidos, o invasoes barbaras , que satiriza a decadencia das religioes e a carencia de novas ideologias. Entao vos pergunto, qual o caminho, qual a ideologia? Eh ser cetico? Niilista? Partir pra desconstruir tudo, com uma mentalidade terrorista ou partir pra odiar e matar quem nao pensa igual, como nosso comandande Che? O pensar ecologico nem eh mais uma opcao hoje em dia, eh um dever, e eh dificil quem realmente pensa verde de modo realista (A maioria se orgulha de nao usar sacola de plastico pra ir no supermercado mas deseja trocar de carro todo ano, por ex.).

Fico mais, em primeiro lugar, com o bom humor. Rir pra nao chorar. Por isso que meu artista preferido eh o Banksy, que esfrega na cara da sociedade as hipocrisias e as stronzatas, como se diz aqui na Italia. Fico mais com o trabalhar pras coisas andarem de uma forma um pouco melhor, mostrando arte e cultura pra pessoas que normalmente nao teriam oportunidade de descobrir por elas sos. Fico mais com trabalhar por novas ideias pra formar a cabeca das novas geracoes de forma diferente, mais realista e completa.

Outra coisa que tenho notado aqui na Italia eh o pessoal reclamando e dizendo que vai sair do pais. Estranhamente todo mundo fala, atualmente, da Espanha, como se fosse a terra da salvacao, o pais do futuro. E a Espanha tem crises equivalentes ou piores. O que passa eh que o pessoal nao entende que a crise eh geral, eh um comportamento escapista e bastante individualista querer sair do seu pais, ao inves de tentar melhora-lo, trabalhar por ele, assim que a gente pode criar novos padroes, novas oportunidades, ao inves de torcer pra isso cair do ceu ou idealizar uma "terra prometida" que nao existe.

festa brasileira!

Bastou uma boa festa pra juntar energias boas do festival numa pista de danca. Como eu ia tocar numa pista menor no sabado, nao fiz meu live, e sim uma "noite brasileira". E nem foi anunciado direito, tava so escrito num painel que teria seratta braziliana as 22:30 com DJ Lucio K do Brasil, e logo chegou um grupao e se jogou nas batidas brasileiras. Tocar pra gringos eh um pouco diferente, as vezes coisas com sonoridades bem percussivas e que soam originais pras referencias musicais deles funcionam mais do que classicos. Entao rolaram muitas producoes proprias, sambas novos, antigos, marcatu, maculele, sessao capoeira.. foi bem divertido. Era pra acabar 2 e acabei 3, sob protesto do publico presente. Senti que monopolizei todo mundo do festival com mais de 30, so ficou a garotada la na pista principal, de musica eletronica.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

the monkeys


Aproveitando o clima do festival o qual eu tou participando, um classico que sempre vale a pena rever. 
Mas como estava falando com minha mae esta semana.. Existem dois tipos de macacos. Os que preferem uma vida plana e ficam eternamente la e os que partem pra uma compreensao e interatividade mais esfericas de si mesmos e para com o mundo. Isso eu acredito que os faz macacos um pouco menos involuidos e frustrados.. ;)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

alcohol


Ontem toquei num festival chamado Mondiali Antirazzisti, que tem a proposta de discutir e protestar contra racismo, xenofobia, sexismo e preconceitos afins. Muito legal, principalmente porque parece que nesses festivais todo mundo que eh militante, outsider ou simplesmente esquisito comparece, o que forma uma mistura interessante...

Ma havia uma coisa curiosa: uma classe de "diversao" que eu nao conhecia.. homens num estilo meio hooligan ficavam no refeitorio (onde estava o bar) bebendo cerveja em quantidades industriais a noite inteira e cantando hinos de futebol all night long. And i mean all night loooong, o mesmo refrao. Ignoravam as palestras, shows e djs do festival, pra ficar no refeitorio, daqueles com luz branca, cantando em grupo. Abracando-se ou com as maos pro alto, ficavam cambaleando e cantando sem parar em loop. Engracado nos primeiros 3 minutos, depois fica meio depre. Presenciei uma cena insolita: um deles, enquanto cantava, comecou a vomitar e engasgar, tudo ao mesmo tempo, e ninguem deu a minima, provavelmente eh uma coisa normal nessa pratica.

Eu realmente acho muito vao, bobo, vazio o mundo do alcool. Pode parecer uma contradicao - afinal trabalho principalmente na noite - mas sempre soube separar a diversao pela musica, celebracao e interatividade da diversao pelas drogas. Esse copo ai do lado, claro que eh agua com gelo, o simbolo da entropia para a wikipedia. Sao 20 anos de noite sem beber, e vejo cada vez mais os resultados, porque tenho 36 com uma cara de 35.. rsss. Mas falando serio, eh indiscutivel que acool incha e envelhece, principalmente se levado como um estilo de vida. 

E vejo muito aqui na Europa, ate mais do que no Brasil, a cultura que se orgulha de beber, como se fosse o maior barato. E acaba sendo patetico. Um jogador espanhol de 22 anos, logo depois de ganhar a copa, falou na entrevista em rede nacional somente um "agora vamos ficar bebados!". Celebracao eh praticamente sinonimo de se embriagar. A industria de bebidas venceu. E eu me sinto um alien.

Fiquei feliz que uma pessoa amiga me falou ontem que parou de beber. E tem acontecido isso com amigos entre 30 e 40. Afinal, um dia as pessoas se tocam que tem que se cuidar, porque o corpo vai envelhecendo e perdendo a capacidade de neutralizar as merdas que a gente faz com ele, como se entupir de alcool so porque eh " divertido", bebidas sao "gostosas" ou pra ficar "mais sociavel"(nos melhores casos).. De que adianta malhar, se alimentar bem, gastar com produtos, medicos etc. e sair 3 vezes por semana pra encher a cara?

Ok, ok, esta na nossa natureza atavica se "embriagar". Afinal observamos varios animais na natureza ficando doidoes, fissurados por substancias inebriantes ou viciantes. Afinal, nao sou moralista ou censurador, vide o que escrevi aqui ha uns posts atras sobre o valor de sair do nosso estado natural as vezes. O problema nao eh a droga, mas como voce a administra. O problema eh a fuga, a muleta, o atalho, e principalmente a dependencia psicologica disso (que no meu ver eh pior que a quimica). 

Assim como as pessoas se condicionam a comer industralizados cheios de glutamato monossodico (os salgados) e acidulantes (os doces) e perdem a sensibilidade de apreciar os reais e sutis gostos da natureza, quem bebe muito perde muito a capacidade de lidar com o mundo de uma forma sutil e natural, de se embriagar com a beleza, com o amor, com a danca, a musica, a expressao, o sexo, enfim, com esse mundo que ja eh inebriante. Basta se exercitar a sensibilidade pra isso, e claro que o alcool esta no caminho oposto.
Alem disso, tem os exercicios pra relaxar, desinibir, ter mais atitude, se permitir. Eles deviam ser ensinados desde a escola primaria pras criancas. Mas nunca eh tarde. Todos nos podemos estimular, induzir naturalmente e auto-sugestionar determinadas ondas.

Uma vez me chamaram de "careta" por nao gostar de comportamentos viciosos. E na epoca nem tive disposicao de explicar que esse sentido pra palavra "careta" que eh uma das maiores caretices na minha opiniao. :) Pra mim careta eh quem se prende a tradicoes e padroes... como o de beber, custe o que custar, por exemplo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

per la fidanzata

Estava rolando pela Austria e os chocolates locais me tomaram de assalto, estupraram minhas narinas e raptaram minhas papilas. Me flagrei derretendo tudo de amargo garganta abaixo e pensando no amor; uma boa formula pra dulcificar a alma e absorver as saudades.

Nesse doce transe, paralelei sobre o equilibrio de opostos: assim como o segredo do chocolate eh o amargo do caroco torrado do cacau com o contraste do balsamo do acucar, a saudade eh fascinante porque eh a arida falta no mesmo lugar que a aconchegante lembranca. Romeu e julieta.

Entao mergulhei em aguas mais profundas e tudo ao redor parecia irreal e real (melhor dizendo, um novo mundo abstrato e nobre). Senti uma forca fluida que me envolvia totalmente e me deixava mais leve, percorrendo meu corpo como endorfina na corrente sanguinea e me causando uma sensacao assustadora: a de confrontar com um mundo ao mesmo tempo familiar e complexamente novo. Como o segredo do chocolate.

Enquanto flutuava, um calafrio desde o coccix ate a nuca me fez espirrar e uma pedrinha branca  saiu da minha boca. Como uma semente flutuante, bem diante do meu rosto comecou a crescer rapidamente e se tornou uma especie de alga cheia de tentaculos, que se enrolaram rapidamente por todo meu corpo. Senti milhares de prazerosas espetadinhas que me fizeram sentir verde. Agora estou clorofilado, pensei, e sou parte da natureza enfim. O frio, calor , medo e conforto ao mesmo tempo me deixavam perplexo e anestesiado. Tudo que podia fazer era relaxar e finalmente me entregar a meus instintos, deixando que tudo aquilo penentrasse sem reservas nas minhas visceras. Fechando os olhos, uma luz laranja-quente quase me ofuscava e eu me lembro de ter pensado: como estou conseguindo respirar normalmente nessa profundidade?

Tudo isso sendo levado pela corrente, suave, constante e segura. De repente percebi que minhas maos estavam todo esse tempo fechadas, e os cristais continuavam crescendo nas minhas palmas.